Chilenos são expulsos do país por bagunça no Rio

Chilenos são expulsos do país por bagunça no Rio

Moradores de rua do Viaduto de Jesus, a 5km da Arena Fonte Nova, acusam a prefeitura de transferi-los para albergues para que não sejam vistos por turistas estrangeiros. Secretário afirma que abordagem está dentro da lei

LORRANE MELO Enviada Especial
postado em 19/06/2014 00:00
 (foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press - 7/6/14)
(foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press - 7/6/14)

Salvador ; ;Eram 18 pessoas, sobraram quatro;, calcula Jone Tomas de Araújo Cerqueira, ;mas pode me chamar de Severino faz tudo;, contando que já foi mecânico, eletricista, borracheiro, entregador e o que pedirem. Mas o que ele gostava mesmo era de cuidar da horta cultivada ali, entre pneus e lixo. ;Aquela ali é a benzetacil;, aponta para a planta baixa e arroxeada, uma das poucas que sobraram da última visita noturna feita por um grupo descaracterizado ao Viaduto de Jesus, a pouco mais de 5km da Arena Fonte Nova. De acordo com os moradores de rua do local, está sendo feita uma ;higienização; na área por causa da presença dos estrangeiros que chegaram para a Copa do Mundo.

A prática teria começado em setembro do ano passado. Guardas municipais chegam em veículos descaracterizados, tiram os pertences dos moradores e os conduzem a albergues ou abrigos pernoite. Aqueles que resistem levam jato d;água e perdem o pouco que têm. Para a prefeitura de Salvador, trata-se de atendimento. ;Eu chamo de pilantragem;, diz Jone, que saiu da casa da mãe ;para não dar trabalho; há 19 anos. Hoje, aos 31, venceu o crack, mas ainda quer conseguir um terreno para dar alegria à mãe, Dona Maria.

É difícil encontrar um morador de rua sóbrio que saiba explicar, em detalhes, o que vem acontecendo entre as 2h e as 4h nas avenidas de Salvador. Muitas vezes, eles acordam com marcas de uma possível surra, mas não conseguem dizer ao certo o que aconteceu. O fato, no entanto, é que a população embaixo de viadutos diminuiu consideravelmente. Eles se escondem, com medo de serem levados. ;A gente não pode sair nos fins de semana porque têm muito turista na cidade;, relata um homem. Segundo ele, o mais complicado é a convivência nos abrigos. ;Um quer fumar, o outro quer beber e, na abstinência, ninguém é confiável.;

Luiz Gonzaga, um dos líderes do Movimento da População de Rua de Salvador, levou a reportagem do Correio a uma das ;malocas; resistentes. O lugar tem cheiro de peixe e de urina, ;mas não tenha medo, não;, fala Jone. A conversa acontece em uma espécie de sala de visitas, onde antes era o banheiro e hoje é a casa de mais um homem. Eles têm eletricidade e água potável, fruto de ;amigos engenheiros;. A comida, geralmente sobras do mercadão, é feita em um fogão improvisado. Os cachorros cuidam da segurança, mas até eles deixaram o local. ;Eram 28, agora são seis;, mostra Jone.

Justiça
Os moradores de rua preferem não ir aos albergues ; entre outros motivos ; por acreditarem que a medida é provisória. A ;faxina; seria só para o período da Copa. A defensora pública Fabiana Miranda entrou com uma ação contra o município por causa da retirada deliberada dos moradores. Segundo ela, o titular da Secretaria de Promoção Social e de Combate à Pobreza (Semps), Henrique Trindade, prometeu, em uma reunião na última semana, que os hotéis sociais permanecerão depois do Mundial, ao contrário do dito antes ; que só funcionariam por 90 dias.

Defensores públicos itinerantes visitaram os abrigos e o entorno da Arena Fonte Nova para monitorar a ocorrência de novas remoções compulsórias e receberam três denúncias de maus-tratos. Fabiana relata que práticas parecidas foram feitas em Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte. Só na goleada da Alemanha em Portugal, na última segunda-feira, 207 abordagens foram feitas pela equipe da prefeitura.

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