Parabéns pra você, meu caro amigo!

Parabéns pra você, meu caro amigo!

Chico Buarque de Hollanda comemora 70 anos hoje. O escritor e amigo Wagner Homem - curador do site oficial do cantor - celebra o humor e a genialidade de um dos mais importantes nomes da cultura nacional

Diego Ponce de Leon
postado em 19/06/2014 00:00




Se por aqui ele não dá as caras, em Paris, Chico Buarque é um habitué. Se estiver pela capital francesa, não estranhe se esbarrar com o compositor comprando um pão em alguma confeitaria do Le Marais, pedalando pela Ilha Saint-Louis (onde ele, supostamente, mantém um apartamento) ou jogando uma pelada em qualquer um dos 20 arrondissements (distritos) da cidade.

Inclusive, hoje. Reza a lenda de que ele esteja por lá (ninguém confirma, ninguém nega). Mesmo sendo o aniversário de 70 anos do cantor carioca, tudo leva a crer que a data passará batida. ;Eu nunca dei parabéns para o Chico. Nem eu nem ninguém que seja próximo a ele. Foi a maneira que ele foi criado;, revela Wagner Homem, responsável pelo site oficial do artista e por alguns livros voltados para a música brasileira, como História de canções ; Chico Buarque.

Wagner figura entre as poucas pessoas com algum acesso ao cantor. ;Nem gosto dessa ideia. É um pouco inconveniente;, conta. Seja como for, a amizade rendeu inúmeras histórias de bastidores. Algumas, ele compartilha nesta entrevista exclusiva ao Correio.

No decorrer do papo, ele lembra aniversários anteriores, sempre modestos. ;Quando fez 50 anos, Chico estava elaborando Paratodos. Caminhava e cantarolava: ;Estou na estrada; Fazendo 50 anos. Sou artista brasileiro;. Vamos ver o que ele aprontará aos 70;. Sorte dos franceses, que saberão primeiro. Quer dizer; Vai que ele está no Leblon. A única certeza é de que não haverá nenhuma grande euforia. Nem bolo nem vela. Pelo menos, não da parte dele.



Entrevista / Wagner Homem


Alguma ideia de como seja o dia de Chico, hoje?

Ele nunca comemorou este negócio de idade. Na casa dele, não se comemorava nenhuma data. A única exceção era o aniversário do Serjão (o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, pai de Chico). Não lembro se foi o Chico ou a Miúcha, mas um deles comprou um presente para entregar a Amélia (a matriarca), por conta do aniversário dela. Levou um esporro daqueles! (risos).

A imprensa anda dizendo que Chico está sofrendo de ;síndrome de João Gilberto;;
(Longos risos) Será que pode publicar apenas minha gargalhada? Não tem nada a ver, não. No fundo, Chico sempre foi um pouco tímido. Ele anda intercalando a produção literária com a musical. Há muito tempo, ele só aparece na mídia quando tem trabalho novo. E cada vez menos. Quando lançou o último disco, nem coletiva ele deu. Mas nenhuma relação com João Gilberto. Até porque são características muito diferentes.

Essa discrição também aparece no uso da internet, que ele pouco utiliza;
Quando comecei a montar o site dele, há alguns anos, tentei convencê-lo a ter um e-mail. Ele, de cara, perguntou: ;Por quê? Para falar com os amigos? Mas não temos telefone, fax?;. Respondi: ;E se alguém precisa te enviar 60 páginas de um material? Vai mandar pelo fax? Por e-mail seria bem mais rápido;. Ele, claro, estava com a resposta pronta: ;Mas, aí, meu caro, eu vou ter que ler as 60 páginas;. (risos). Depois, ele acabou se rendendo.

Esse tipo de resposta,irreverente, é uma marca de Chico;
Ele próprio me contou que, certa vez, estava parado no sinal de trânsito e um grupo na rua o reconheceu e correu para cima do carro. ;Chico! Chico.; Imediatamente, ele interrompeu e disse: ;O Djavan está no carro de trás!”. Ele é muito rápido no gatilho; Outra vez, estava em um bar com o Elifas Andreato (consagrado ilustrador de capas de discos de vinis), quando o pessoal da mesa ao lado começou a sussurrar: ;É o Chico Buarque;. Ele percebeu e disse bem alto: ;P; Elifas! Não aguento mais ser confundido com esse tal de Chico Buarque;. O povo acreditou e desistiu de abordá-lo. (risos)

O Chico pessoalmente é muito diferente daquele que povoa o imaginário popular?
Existe esta história do ;tímido;. De timidez, ele não tem nada. Isso é uma bobagem. Ele é, na verdade, recatado, reservado. Talvez a ironia seja justamente esta: ele não é um personagem. Ele próprio sempre diz: ;Quando Caetano e Bethânia entram no palco, eles são personagens. Eu não! Sou eu quem estou ali;. Mas é um cara muito agradável. De uma criatividade; Ele é capaz de inventar, de improviso, um remédio com toda a sintomatologia. O nome, o princípio ativo, a bula, o cara que inventou e ainda discorre por minutos acerca, com seriedade! Ele é muito engraçado.

Se perguntássemos ao Chico se ele tem preferência por alguma canção, alguma ideia do que ele responderia?
Ele, com certeza, diria: a última e a próxima.

Será que aos, 70, ele pensa em parar de cantar, eventualmente?
Chico é um cara muito consciente, muito pé no chão. Ele já disse: ;Acho que um dia a música me abandona. Se não há compositor que compõe até os 80 anos, há pintor que pinta até os 80, escritor que escreve até os 90;;. Ou seja, talvez ele esteja se preparando. Pensando em outras alternativas.

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