O Maracanazo do tiki-taka

O Maracanazo do tiki-taka

Triunfo histórico do Chile, por 2 x 0, derruba a atual campeã, Espanha, encerra um dos ciclos mais vitoriosos e admirados da história do futebol e acende a luz amarela para a Seleção Brasileira, possível adversária chilena nas oitavas de final

Marcos Paulo Lima Enviado especial
postado em 19/06/2014 00:00
 (foto: Jorge Silva/Reuters)
(foto: Jorge Silva/Reuters)


Rio de Janeiro ; Vinte e cinco anos depois de passar o maior vexame de sua história ao simular um corte no goleiro Rojas após um foguete ser atirado no gramado do Maracanã, e ser banida pela Fifa das Eliminatórias para a Copa de 1994, o Chile se redimiu ao escrever uma página histórica no templo que, até ontem, só trazia más recordações. A vitória por 2 x 0 sobre a Espanha significou muito mais do que a eliminação da atual campeã. Colonizados pelo país ibérico, os heróis do general argentino Jorge Sampaoli podem ter colocado a última pá de cal em um estilo de jogo que marcou época: o tiki-taka.

Não foi por falta de aviso. Influenciada pelo Barcelona, a filosofia que levou a Espanha à conquista de duas Eurocopas (2008 e 2012) e ao inédito título mundial (2010) já havia sucumbido em três ocasiões recentes. Na Liga dos Campeões, o estilo do time catalão foi arruinado por Bayern de Munique e Atlético de Madrid. A Seleção Brasileira de Luiz Felipe Scolari também mandou recado ao derrotar a Espanha por 3 x 0 na final da Copa das Confederações. Desatento aos sinais dos deuses da bola, Vicente del Bosque não reinventou a Espanha. Perdeu por 5 x 1 para a Holanda em outro duro golpe. Ontem, como se estivesse em uma daquelas arenas de tourada de Madri, virou touro. Grogue, sentou-se no banco de reservas e ouviu gritos de ;olé; no dia em que o Chile colocou o tiki-taka na roda.

Vilão nas Eliminatórias para a Copa de 1990, a seleção chilena virou a heroína dos brasileiros. Unidos em um só ritmo, torcedores dos dois países cantaram ;olé, olé, olé, olé, Chile, Chile;. Bons perdedores, os espanhóis cumprimentavam os adversários um a um dentro do gramado. À beira do campo, era impossível enxergar a careca do treinador Jorge Sampaoli. Reservas e membros da comissão técnica pulavam em cima do arquiteto da terceira eliminação de um campeã vigente, neste século, na fase de grupos da Copa do Mundo. Com uma diferença: a Espanha dá adeus depois de apenas duas rodadas. França (2002) e Itália (2006) tiveram sobrevida até a terceira. Além dos três, o Brasil caiu precocemente na Copa de 1966, na Inglaterra.

Marcação implacável

Na véspera da partida de ontem, Jorge Sampaoli e Alexis Sánchez disseram que eliminar a Espanha seria um feito histórico. Coube ao atacante Vargas escrever o primeiro capítulo. Configurado no esquema tático 3-4-1-2, o Chile quebrou o passe espanhol e sufocou o inimigo com uma incansável marcação. Enquanto a Espanha tentava dar fôlego ao tiki-taka, o Chile mostrava um futebol vertical, objetivo, agressivo, marcas deste Mundial. Aos 19 minutos, Aránguiz recebeu a bola de Alexis Sánchez e tocou para trás. Vargas dominou, tirou Casillas e chutou caído para dentro do gol. Sem ingresso, torcedores chilenos que ouviam o jogo fora do estádio, com radinhos de pilha e ao celular, festejavam como se estivessem dentro do Maracanã.

O último suspiro do tiki-taka foi aos 43 minutos do primeiro tempo. Escravo de Messi no Barcelona, Alexis Sánchez mais uma vez assumiu o papel de protagonista do Chile e cobrou a falta. Casillas rebateu a bola para o meio da área e o volante Aránguiz não desperdiçou. Dominou a bola e finalizou no canto do arqueiro para fazer 2 x 0.

A partir de agora, a noite do histórico jogo da fogueteira do Maracanã é passado. As bodas de prata da última vez em que o Chile pisou no estádio serão lembradas para sempre na lápide com letras de ouro no túmulo da Espanha. Aqui jaz o tiki-taka: Maracanã, Rio de Janeiro, 18 de junho de 2014. Vivos, Holanda e Chile decidirão o possível adversário do Brasil nas oitavas de final.

Suspensão

O Chile voltou a jogar ontem no Maracanã depois de 25 anos. Em 1989, nas Eliminatórias para a Copa do Mundo da Itália, um rojão atirado pela fogueteira Rosiney Mello fez com que o goleiro Rojas se cortasse propositalmente em uma tentativa de mostrar que tinha sido atingido pela torcedora. Era uma farsa. O Brasil se classificou para a Copa do Mundo e o Chile foi suspenso pela Fifa.

Campeãs derrotadas

Chegou com o troféu na mala e foi eliminada na fase de grupos:

1950 ; Itália
1966 ; Brasil
2002 ; França
2010 ; Itália
2014 ; Espanha

Memória

2014
Derrotada por Holanda
(5 x 1) e Chile (2 x 0), cai
na primeira fase da Copa
do Mundo.

2012
La Roja dá uma aula de futebol na Itália com uma golada por 4 x 0 e ganha o
bi da Eurocopa.

2010
A Espanha derrota a Holanda por 1 x 0 e conquista a Copa do Mundo na África do Sul.

2008
A Espanha conquista a Eurocopa com uma vitória por 1 x 0 sobre a Alemanha.

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