Congresso em clima de recesso antecipado

Congresso em clima de recesso antecipado

Parlamentares esticam feriado de Corpus Christi para enforcar o único dia de atividades da semana. Sem quórum, reunião de CPMI teve de ser cancelada e depoimento de gerente da Petrobras reuniu apenas cinco senadores

JOÃO VALADARES DANIELA GARCIA
postado em 19/06/2014 00:00
 (foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
(foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Copa do Mundo, campanha eleitoral nos estados e véspera de feriado. Fórmula perfeita para a gazeta oficial dos senadores e deputados. Não deu outra. Ontem, mais uma vez, os corredores e plenários do Congresso Nacional ficaram vazios. Pela manhã, o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados adiou para a próxima quarta-feira o depoimento de sete testemunhas do processo contra o deputado André Vargas (sem partido-PR), suspeito de envolvimento com o doleiro Alberto Youssef, preso em março durante a Operação Lava-Jato da Polícia Federal. Além do presidente e do relator, apenas dois deputados compareceram. À tarde, a reunião da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) mista que apura irregularidades na Petrobras foi cancelada por falta de quórum.

Antes do início do Mundial, o planejamento da Câmara previa oito sessões deliberativas ; aquela em que há análise de matérias. Já o Senado planejou quatro reuniões. A promessa não será cumprida. O pior: durante a competição, o contribuinte brasileiro desembolsará R$ 727,8 milhões para custear o Congresso vazio.

Na manhã de ontem, o relator do processo contra André Vargas no Conselho de Ética, deputado Júlio Delgado (PSB-MG), aproveitou o baixo número de presentes para se promover. ;Eu estou aqui. Eu também gosto de Copa do Mundo e de festas juninas. Acordei hoje às 3h30 da manhã para pegar um voo. Fiz a minha parte;, afirmou. Às 11h, o presidente do colegiado, deputado Ricardo Izar (PSD-SP), abriu a sessão.

Das sete testemunhas convidadas por Delgado, apenas três comunicaram que não poderiam comparecer: Bernardo Tosto, dono do jatinho que teria sido usado por Vargas em viagem de férias com a família para João Pessoa; o secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, Carlos Gadelha, que teria intermediado as negociações com o laboratório Labogen; e o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP). A pedido de Tosto, o colegiado concordou que ele preste os esclarecimentos por escrito. O presidente do PT, Rui Falcão, o líder do partido na Câmara, deputado Vicentinho (SP), e os donos do Labogen, Leonardo Meireles e Esdras Ferreira, não justificaram a ausência. Delgado comunicou que o doleiro Alberto Youssef será ouvido em 1; de julho, às 11h, por meio de videoconferência.

Manobra cantada

Na CPMI que apura irregularidades na Petrobras, parlamentares da oposição acusaram aliados do governo de se ausentarem para protelar os trabalhos. Contudo, deputados e senadores de legendas contrários à base governista também fizeram parte dos faltosos. A reunião tinha o objetivo de votar 379 requerimentos, como a quebra dos sigilos bancário, telefônico e fiscal do ex-diretor de Refino e Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa e de Yousseff. Presidente da CPMI, o senador Vital do Rêgo (PMDB-PB) estabeleceu prazo de 30 minutos para que os congressistas chegassem, além do horário marcado para a reunião. Apenas dez parlamentares ; dois senadores e oito deputados ; compareceram. Segundo o regimento interno, a sessão só poderia ser aberta com a presença de 11 membros ; eram necessários 17 para que houvesse votação.

O relator da CPMI, deputado Marco Maia (PT-RS), comentou que ontem ;era um dia de difícil mobilização diante do feriado;. No total, foram registradas 14 ausências de titulares do Senado e 11 da Câmara. Chamou a atenção a falta dos senadores aliados do governo Humberto Costa (PT-PE), Vanessa Graziottini (PCdoB-AM) e José Pimentel (PT-CE), já que os três parlamentares participaram da sessão, pela manhã, da CPI da Petrobras exclusiva do Senado. Segundo Vanessa, ela se atrasou para a comissão porque estava em reunião no gabinete. ;Quando estava a caminho, fiquei sabendo que a CPMI tinha sido cancelada;, disse. A mesma resposta foi dada por Pimentel. O Correio não recebeu retorno dos outros senadores.

Reconhecido como senador de oposição, Sérgio Petecão (PSD-AC) é membro titular e não esteve ontem no Congresso Nacional. ;Estou aproveitando o recesso branco para tocar a campanha aqui no meu estado;, justificou por telefone. Também titular da comissão, o senador Mario Couto (PSDB-PA) estava ontem em Belém. ;Eu não fui comunicado dessa reunião. Depois vou ligar para o meu gabinete para saber o que aconteceu. Ouviram alguém lá hoje (ontem)?;, perguntou à reportagem.

;Estou aproveitando o recesso branco para tocar a campanha aqui no meu estado;
Sérgio Petecão (PSD-AC), senador

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