Pedido de socorro

Pedido de socorro

Bagdá faz solicitação formal aos Estados Unidos para que bombardeiem os insurgentes que avançam do norte e do oeste sobre a capital. Extremistas sunitas atacam a principal refinaria de petróleo do país e resistem ao Exército

Gabriela Walker
postado em 19/06/2014 00:00
 (foto: Haidar Hamdam/AFP)
(foto: Haidar Hamdam/AFP)





O governo iraquiano invocou o acordo de defesa firmado com os Estados Unidos e pediu que as forças americanas façam ataques aéreos contra os insurgentes do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), confirmou o general Martin Dempsey, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA. Enquanto norte-americanos e iranianos avaliam a possibilidade de cooperar com o primeiro-ministro Nuri Al-Maliki, político da maioria religiosa muçulmana xiita, a fim de controlar o avanço dos extremistas, que são da minoria sunita. Ontem, o EIIL fez uma incursão contra a maior refinaria de petróleo do país, em Baiji, 200km ao norte da capital, Bagdá. O Exército informou ter usado helicópteros e unidades de elite para repelir a investida, mas informações da agência de notícias Reuters indicavam que, após intensos combates, os jihadistas ainda controlavam 75% da refinaria.

O ministro das Relações Exteriores do Iraque, Hoshyar Zebari, justificou o pedido de ajuda como uma estratégia para ;quebrar o moral; do EIIL. Os EUA confirmaram que estudam a possibilidade de realizar ataques com aviões não tripulados, mas não divulgaram nenhuma decisão. O presidente Barack Obama se reuniu com congressistas e especialistas para discutir a posição americana diante do avanço extremista. ;O governo iraquiano pediu ajuda. Essa é, incontestavelmente, uma diferença que precisamos destacar;, ressaltou o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney. Durante audiência no Senado, o general Dempsey evitou responder se era a favor ou contra uma resposta militar, mas ressaltou que considera interesse americano ;conter o EIIL onde quer que os encontremos;.

Em pronunciamento pela tevê, o premiê iraquiano disse que o avanço extremista ;é um revés, não uma derrota;. Al-Maliki voltou a condenar a Arábia Saudita, reino de maioria sunita, a quem acusa de financiar os extremistas no Iraque, e prometeu vitória do Exército nacional. ;Enfrentaremos o terrorismo e acabaremos com o complô;, declarou. O governo saudita rebateu as acusações, e o chanceler Saud Bin Faisal responsabilizou Al-Maliki por deixar o Iraque à ;beira de uma guerra civil; e desestabilizar a região.

O especialista em segurança internacional Bernardo Wahl, da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), endossa a ideia de que o EIIL pode ser patrocinado por um Estado estrangeiro, como a Arábia Saudita. ;O que podemos observar nos últimos anos, na região, é o que o jargão técnico chama de ;guerra por procuração;, que é uma maneira de um Estado causar instabilidade para garantir seus interesses políticos e, ao mesmo tempo, negar sua participação;, explica. ;A gente sabe que a Arábia Saudita não ficou contente com o acordo nuclear entre Estados Unidos e Irã. Essa pode ser uma forma de demonstrar a insatisfação;, analisa.

Irã em ação

O vizinho Irã, onde também predominam os xiitas, prometeu defender os santuários da sua vertente islâmica, ameaçados pelo avanço dos extremistas sunitas. Em um discurso na cidade de Khorramabad, perto da fronteira, o presidente Hassan Rohani citou as quatro grandes cidades iraquianas que abrigam mausoléus xiitas, atração para milhares de peregrinos iranianos: Kerbala, Najaf, Kazimiya e Samarra. ;Sobre os locais sagrados dos imãs xiitas, advertimos às grandes potências, a seus lacaios, aos assassinos e aos terroristas que o grande povo iraniano fará o possível para protegê-los;, afirmou.

O próprio Rohani e outros altos funcionários do regime islâmico já afirmaram reiteradas vezes que Teerã está aberta para uma ação coordenada com Washington. O chefe de gabinete da presidência, Mohammad Nahavandian, disse que as discussões em andamento sobre o programa nuclear iraniano ;são um teste de confiança; e condicionou as chances de cooperação ao sucesso das negociações. ;Se elas resultarem em uma decisão final, teremos a oportunidade de discutir outros temas;, afirmou. Reforçando o que disse na semana passada o presidente americano, Nahavandian defendeu que ;a gestão da situação deveria ser confiada à população e ao governo do Iraque;.

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