À procura de Chico Buarque

À procura de Chico Buarque

Diego Ponce de Leon
postado em 19/06/2014 00:00



Com tantos nomes à disposição, a Universidade de Brasília (UnB) preferiu trilhar o caminho mais difícil. O Instituto de Letras da entidade resolveu propor a outorga de título de doutor honoris causa justamente a Chico Buarque, o cara mais discreto da música popular brasileira (à exceção de João Gilberto, cânone na arte de desaparecer) e avesso a esse tipo de honraria. Resultado: o convite foi feito há mais de um ano e o compositor, como era de esperar, esquiva-se de todas as formas. No entanto, a esperança resiste.

;A ideia de trazer Chico foi não somente pela extensão e pela relevância da obra, mas também porque os fundadores da universidade tiveram estreita ligação com seu pai, o sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda;, esclareceu a professora Sylvia Cyntrão, ex-diretora do departamento de letras.

Sylvia não encara a saga sozinha. O atual diretor, o espanhol Enrique Huelva, participa de cada passo nesta jornada à procura do compositor carioca. Foi à custa de Chico Buarque, inclusive, que Enrique teve o primeiro contato com a cultura brasileira. ;Estudava na Alemanha, quando um professor me apresentou ao trabalho de Chico. Fiquei impressionado. A partir dele, passei a nutrir um interesse constante em melhor conhecer a realidade do Brasil.; E assim aconteceu. Desde 2002, Enrique passou a integrar, definitivamente, o quadro da universidade.

#VemChico
No decorrer do último ano, foram várias as tentativas de se aproximar do cantor. Alguns episódios ganharam ares de crônica. ;Lembrei-me de que Oswaldo Montenegro era amigo pessoal de Chico e, de vez em quando, esbarrava com ele para jogar bola. Fui atrás de Oswaldo. Ele me respondeu: ;Chico é inachável;;, relembrou Sylvia.

A professora chegou a bater na porta do escritório do assessor do artista, no Rio de Janeiro, onde foi recebida. Mas não rendeu o efeito esperado. Alguns sugeriram que procurassem o editor de Chico. Assim foi feito. ;Foram muitos telefonemas para São Paulo, esperas e mensagens. Por fim, recebemos um e-mail da secretária do editor dizendo que ele havia tentado, por duas vezes, convencer Chico. Mas que não obtivera reposta positiva;, lamentou.

Ironicamente, Sylvia esbarrou com o cantor há dois anos. ;Cruzei com ele, no Leblon, caminhando na praia e tomando água de coco! Mas ainda não tinha a missão de entregar-lhe a carta;, divertiu-se. Nos anos 1990, o mesmo departamento teve sucesso ao outorgar o título a José Saramago. Tentam, agora, repetir a dose com Chico Buarque. ;Mantemos esperança de que ele possa nos receber. Temos clara a importância para a nossa universidade da manifestação oficial desse reconhecimento;, finalizou Sylvia. Sinal fechado? Não do que depender da comunidade acadêmica. Vem, Chico!

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