Vacina contra tumores no cérebro é testada

Vacina contra tumores no cérebro é testada

Na Alemanha, terapia testada em ratos gera anticorpos que retardam o desenvolvimento de tumores nas células que protegem neurônios. Cientista do Brasil faz pesquisa semelhante e se prepara para testá-la em humanos

» Bruna Sensêve
postado em 26/06/2014 00:00
Os tumores cerebrais conhecidos como gliomas são sempre um diagnóstico grave. Eles recebem o nome por se originarem nas células gliais, responsáveis pela proteção, pela nutrição e pelo suporte aos neurônios. Representam 80% do tipo maligno iniciado no cérebro e são incuráveis. Atualmente, o procedimento terapêutico padrão segue os mesmos preceitos de outros tipos de cancros: cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Quando efetivo, consegue atrasar o desenvolvimento da doença, que, na maioria das vezes, terá recidiva de um tipo ainda mais grave do mal. A esperança para pacientes com o problema começa a surgir na imunoterapia, vista por muitos especialistas como a grande promessa de combate aos cânceres.

Pesquisadores das universidades de Heidelberg e de Tubingen, na Alemanha, publicaram hoje, na revista científica Nature, um trabalho bastante promissor na busca por um imunizante capaz de retardar a corrida destruidora desse tipo de doença. O artigo foca na atuação da proteína IDH1, expressa em uma grande fração dos gliomas, especialmente nos astrocitomas ; as neoplasias cerebrais primárias mais comuns ; em grau II e III. Em ambos os quadros, existe uma mutação genética muito frequente (IDH1-R132H), percebida em mais de 60% dos gliomas que expressam a proteína estudada pelos alemães. ;Essa terapia tem como base o conceito de que só as células do tumor expressam a versão mutante dessa enzima, as células normais, não;, resume Glaucia Noeli Hajj, bióloga e pesquisadora do A.C. Camargo Cancer Center.

Dessa forma, foi possível construir uma resposta imune específica contra a proteína mutante para desacelerar o crescimento do cancro. Não é uma vacina preventiva, mas terapêutica. ;A proposta deles é que essa terapia poderia estimular o sistema imune do paciente a montar uma resposta contra um tumor que já esteja presente, diminuindo, então, a progressão dele para formas mais agressivas;, complementa Hajj. Essa consequência é muito comum em cânceres desse tipo. Um astrocitoma de grau IV, por exemplo, pode surgir com a progressão de um de graus II ou III. Ao atingir o quarto nível de gravidade, passa a ser chamado de glioblastoma. Ele é, ao mesmo tempo, o tipo mais grave e o mais comum de glioma diagnosticado ; representa cerca de 55% dos casos.

Os camundongos portadores da mutação IDH1-R132H e vacinados pela equipe liderada por Michael Platten produziram anticorpos que atacaram as proteínas expressas pelas células mutantes. ;Conceitualmente, as pessoas com gliomas de baixo grau e alta prevalência da mutação IDH1 (R132H) representam uma população de pacientes que pode se beneficiar de uma vacina de tumor, que pode permanecer estável ou minimamente crescendo por vários anos;, garante o pesquisador.

Experiência brasileira
Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e responsável pela neurocirurgia do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), Guilherme Lepski conta que conhece o trabalho do grupo da Alemanha, pois também é professor da Universidade de Tubingen. No Brasil, ele desenvolve estratégia de imunoterapia para combater o mesmo tipo de mal. ;A doença é altamente maligna e a medicina ainda não tem meios adequados para tratá-la. Então, existe muito interesse na pesquisa para deter esse tumor.; Segundo Lepski, a doença não é rara, a incidência alcança 2% de todos os cânceres que acometem a população adulta.

No trabalho da Alemanha, o conceito de vacina é aplicado quase à risca. Assim como no caso de uma infecção viral parte do vírus é injetada no organismo para aprimorar a resposta imune, foi criada uma vacina com base em um marcador do tumor que é inoculada no organismo do paciente para produzir anticorpos. ;Nossa estratégia é diferente, estamos desenvolvendo uma vacina contra várias partes diferentes do tumor e que ative as células de defesa contra ele por inteiro, não só uma proteína específica;, diferencia Lepski. ;Solicitamos autorização à comissão de ética para que, nos próximo semestre, possamos iniciar a primeira etapa de ensaio clínico. Estamos aguardando só isso para poder trazer os primeiros casos.;

As vacinas de Lepski precisam ser individualizadas. Ele explica que a imunoterapia é a ideia de fazer o paciente com um tumor ativar o sistema de defesa de forma personalizada. Para cada doente, é preciso coletar amostras do cancro, das células sanguíneas e do sistema de defesa. Se o material for de outra pessoa, pode ser identificado como invasor e passar a ser alvo do sistema imune. Para participar do ensaio clínico, o paciente precisará estar sob condições específicas. Entre elas, já ter sido submetido ao tratamento convencional.


Batalha de um vencedor
Estrela do basquete mundial, Oscar Schmidt trouxe o glioma para os holofotes ao anunciar o tratamento contra o problema em 2011. O brasileiro foi diagnosticado com um câncer na parte frontal esquerda do cérebro. Em 2011, quando foi submetido à primeira cirurgia, o câncer foi identificado como maligno de grau 2, considerado baixo. Desde a última cirurgia, a doença aumentou para o grau 3 e hoje é considerada de grau 4. No último domingo, em um programa de televisão, o ex-atleta voltou a mostrar otimismo ao falar sobre a doença. Disse que ela ;pegou o cara errado;.

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