Bancos retêm crédito e taxa de juros dispara

Bancos retêm crédito e taxa de juros dispara

Ordem nas agências bancárias é reduzir os limites de empréstimos e financiamentos disponíveis nas contas-correntes da clientela. Encargos médios cobrados das pessoas físicas atingem 42,5% ao ano, os maiores registrados desde maio de 2011

» DECO BANCILLON
postado em 26/06/2014 00:00
 (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)



Diante da ameaça de uma nova onda de calotes, os bancos apertaram o crédito. Além de cortarem várias das linhas de empréstimos disponíveis nas contas-correntes da clientela, especialmente daquela com renda de até 10 salários mínimos (R$ 7,2 mil), empurraram as taxas de juros para as alturas. A ordem que impera nas agências é dar preferência às operações com garantias, como o consignado, com desconto em folha. Não por acaso, de janeiro a maio, de cada R$ 100 liberados pelas instituições financeiras, R$ 70 têm as parcelas descontadas dos contracheques dos trabalhadores.

;Os riscos estão elevados. Boa parte da clientela está endividada demais, e a inflação corroeu a renda;, disse um executivo do Itaú Unibanco. ;O nome do jogo agora é seletividade e juros mais altos;, acrescentou um representante do Santander. O Banco Central reforça esse quadro desanimador, que dificulta ainda mais a reação da atividade. Pelas contas da autoridade monetária, em vez de 10%, os empréstimos e os financiamentos com recursos livres, sem subsídios, terão incremento de apenas 7% em 2014. Não é só. No mês passado, os juros cobrados das pessoas físicas atingiram 42,5%, o maior nível desde maio de 2011.

Bem mais salgada ficou a conta de quem recorreu ao cheque especial. Em maio, os juros praticados nessa linha chegaram a 168,5% ao ano. Apenas como exemplo, uma pessoa que tivesse tomado R$ 5 mil emprestados a essa taxa pagaria, ao fim de um ano, R$ 8.425 apenas em encargos. É por essa razão que 10 em cada 100 clientes que utilizam o limite do especial não conseguem pagar a dívida contraída. A inadimplência nessa linha é duas vezes maior do que a média das demais.

O produtor de eventos Wesley Martins, 21 anos, reforça essa estatística. Além de dever quase R$ 1,5 mil no cartão de crédito, ele acabou assumindo outro débito, de R$ 1 mil, no cheque especial. Resultado: não conseguiu pagar ambas as contas e entrou para o cadastro de inadimplentes. ;Estou reduzindo tudo o que posso, comprando apenas o necessário, porque vi que estava exagerando. Agora, a solução é tentar renegociar essas dívidas para me ver livre do cheque especial o quanto antes;, disse.

Não será uma tarefa fácil. ;Com medo de calotes, as exigências para liberação de crédito aumentaram bastante. Acabou o tempo de dinheiro fácil;, disse Miguel Ribeiro de Oliveira, economista da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). Um exemplo é o crédito para automóveis. Em três meses, até maio, as concessões de financiamentos despencaram 12,6%. ;No começo do ano passado, de cada 10 fichas para a compra de um carro, os bancos negavam apenas três pedidos. Agora é o contrário: de cada 10, eles aprovam apenas três;, emendou. Em 12 meses, o volume de crédito contratado por meio dessas operações encolheu 2,7%.

Na avaliação do chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, tal retração não se deve à maior cautela dos bancos, mas, sim, à retirada gradual dos estímulos dados pelo governo para a compra de automóveis, como o desconto do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que deve ser postergado até o fim do ano.

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