Terror chega à capital

Terror chega à capital

Explosão de carro-bomba diante de centro comercial lotado, em Abuja, deixou ao menos 21 mortos e 52 feridos. Ataque ocorreu uma hora antes da partida da seleção contra a Argentina, pela Copa do Mundo. Boko Haram é o principal suspeito

Rodrigo Craveiro
postado em 26/06/2014 00:00
 (foto: AFP)
(foto: AFP)







Faltava cerca de uma hora para o início da partida entre Nigéria e Argentina, pela Copa do Mundo. O centro comercial de Emab Plaza, próximo à sede do governo federal, na capital Abuja, estava lotado, e muitas lojas tinham os televisores prontos para transmitir o jogo, decisivo para as pretensões da seleção africana. Por volta das 16h de ontem (meio-dia em Brasília), uma forte explosão no estacionamento matou pelo menos 21 pessoas, feriu 52 e destruiu cerca de 40 veículos.

;As operações de resgate começaram. Há colunas de fumaça. É um lugar onde havia muita gente. Está cheio porque é um dia de trabalho;, declarou à agência France-Presse Manko Ezekiel, porta-voz da Agência Nacional de Gestão de Situações de Emergência (Nema). Até o fechamento desta edição, nenhum grupo extremista tinha reivindicado a autoria do atentado com um carro-bomba, mas as suspeitas recaem sobre o Boko Haram, responsável por uma série de massacres e de sequestros. Fundada em 2002, a facção lançou várias operações militares sete anos depois, com o intuito de criar um Estado islâmico. A guerra travada pelos terroristas liderados por Abubakar Shekau e avessos a qualquer modelo de educação ocidental já deixou milhares de mortos e afetou 3 milhões de pessoas.

Por meio de um comunicado, o Centro Nacional de Informação confirmou a prisão de um suspeito e a execução de outro por soldados, no momento em que tentava fugir de moto. Os 177 milhões de nigerianos experimentaram sentimentos controversos, como o luto pelas mortes em mais um ataque terrorista e a classificação da seleção para as oitavas-de-final do Mundial.

O consultor de mídias sociais Abubakar Usman, 33 anos, não percebeu o som da detonação. Após o expediente, deparou-se com uma cena dantesca, ao passar pela região do Emab Plaza. ;Eu presenciei carros queimados. Um monte deles. Também vi pedaços de corpos. A maioria das vítimas era de ambulantes que trabalhavam na entrada do mercado;, contou ao Correio, por meio da internet. ;Uma senhora me relatou como escapou da explosão e disse ter perdido três irmãs, que vendiam bananas ali;, acrescentou. A explosão também matou Suleiman Bisala, editor executivo do jornal New Telegraph. Ele teria ido ao local para consertar o celular.

O estudante Aloma Daniel, 25 anos, estava no trabalho quando escutou um barulho bastante alto. ;Nós fomos para fora e vimos as pessoas correndo, com medo de uma segunda explosão. Algumas choravam e buscavam os socorristas. Eu e meu patrão fechamos a empresa e fomos para casa;, relatou à reportagem. A paranoia de ser alvo de um atentado levou Daniel a mudar seus hábitos, que evita transitar em meio à multidão. ;Antes dos cultos nas igrejas, todos somos revistados na entrada. Alguns templos não permitem que mulheres carreguem sacolas ou bolsas.;

Infiltração
Para Ayo Johnson, jornalista leonês especializado em África, o Boko Haram minou o fôlego das forças de segurança nigerianas e intensificou a campanha de violência contra o governo e a infra-estrutura do país. ;O grupo vai sequestrar o maior número possível de mulheres, com o objetivo de utilizá-las como moeda de troca em uma eventual negociação com as autoridades;, admitiu ao Correio, em entrevista por telefone, de Londres. O analista vê o atentado em Abuja como um indicativo da falta de capacidade das forças de segurança em proteger a capital. ;O próprio presidente Goodluck Jonathan admitiu que o Boko Haram se infiltrou na polícia, no Exército, nos serviços de inteligência e no próprio parlamento;, acrescentou. Na semana passada, os militantes islâmicos invadiram aldeia no nordeste da Nigéria e capturaram 60 mulheres ; 219 estudantes seguem em poder dos terroristas desde 15 de abril passado.

O chefe de Estado nigeriano suspendeu a participação na cúpula da União Africana e deveria retornar ainda hoje a Abuja. Jonathan teria embarcado a Malabo, capital da Guiné Equatorial, meia hora antes do ataque ao Emab Plaza. O presidente teria sido informado do atentado assim que chegou ao hotel.



Os nigerianos falam

COMO O SENHOR VÊ A AMEAÇA DO EXTREMISMO ISLÂMICO EM SEU PAÍS?

Kingsley Ohia,
43 anos, arquiteto,
morador de Abuja




;Nós sabíamos que um dia como esse chegaria. Estamos resignados à fé. A vida continua! O Emab Plaza é uma das mais movimentadas praças comerciais da cidade. A ideia dos terroristas era causar o maior número de mortes possível. Eu acredito que isso seja uma fase, algo que vai passar um dia. Talvez esse ataque dificulte as compras em Abuja, por conta das novas medidas de segurança. Todos estamos com medo, mas a vida tem que prosseguir.;

Abubakar Usman,
33 anos, consultor de mídias sociais e blogueiro, morador de Abuja




;O incidente de hoje (ontem) em Abuja foi algo infeliz. O governo tem mostrado uma incompetência tamanha em lidar com a situação. A ameaça continua crescendo e se
disseminando. As pessoas costumavam pensar que
coisas assim só ocorriam no
nordeste. Agora, trata-se da
capital do país e há
indícios de que a
insurgência islâmica se espalha rumo ao sul.

Aloma Daniel,
25 anos, estudante,
morador de Abuja




;O grupo islâmico Boko Haram funciona mais como uma seita política-religiosa. Os seus integrantes lutam contra o governo nigeriano, apenas porque é um cristão (Goodluck Jonathan) quem comanda esta nação. Eles tentam tornar a nação ingovernável. Muitas autoridades têm envolvimento com os extremistas. Por isso, o Boko Haram recebe informações, em primeira mão, sobre o que o governo planeja. Isso torna difícil combater a facção.;

Femi Durojaye,
32 anos, empresário,
morador de Lagos




;Há uma grave incerteza em meu país. Você sai de casa pela manhã e não sabe se vai voltar à noite. O governo nega a gravidade da situação da Nigéria. Existe uma desconfiança entre as autoridades e os cidadãos. Podemos combater o Boko Haram, mas nossas forças de segurança precisam de mais abordagens táticas e de coleta de dados de inteligência. O Boko Haram tem patrocinadores. Temos que rastrear o dinheiro e cortar o financiamento.;



Duas perguntas para

Magnus Ranstorp, especialista em terrorismo
pelo Colégio de Defesa Nacional da Suécia



O senhor esperava
que o Boko Haram
atacasse o centro
de Abuja?

Eu acho que o atentado na capital nigeriana foi algo bem surpreendente. Mostra que o Boko Haram está empurrando suas operações em direção ao sul e demonstra confiança de qu

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