Pedra no sapato do poder

Pedra no sapato do poder

Paulo Werneck, curador da Flip, conta detalhes da 12ª edição do evento literário, que homenageia Millôr Fernandes

postado em 26/06/2014 00:00




;Fiquem tranquilos, poderosos que têm medo de nós! Nenhum humorista atira para matar;, ironizava o saudoso Millôr Fernandes. Tomado pelo humor cáustico, ele foi um crítico contumaz das estruturas de poder e das ideologias arcaicas perenes na sociedade brasileira. Disse e falou muito num tempo em que temerosas retrações da democracia ceifavam o direito de expressão. O homem de múltiplas facetas (foi tradutor de Shakespeare, inventor do frescobol, dramaturgo e jornalista) é o homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano. Pela primeira vez, o festival exalta como protagonista um autor contemporâneo.

Jornalista desde 1930, Millôr testemunhou grande parte da história brasileira do século 20. Até as vésperas de sua morte, em 2012, lutou em nome da resistência, sem nunca levantar bandeiras partidárias ou ideológicas. ;Millôr foi uma pedra nos sapatos dos poderosos;, conta Paulo Werneck, curador da Flip, que acontece entre 29 de julho e 3 de agosto. Foi o espírito crítico, inerente à memória do cartunista carioca, que deu a tônica na escolha dos 42 escritores convidados ao debate. Para compor as mesas em 2014, Werneck chamou um séquito de autores tomados pela aura contestatória, tendo como eixo principal a crítica ao poder.

Entre eles, está o humorista e escritor Gregório Duvivier, que participará da mesa Poesia & Prosa com a jornalista Eliane Brum. Sobre o homenageado, Duvivier relembra que Millôr o ensinou a reconhecer o poder da comicidade.

;Ele frequentava a minha casa, era amigo da minha mãe (a cantora Olívia Byington). Com Millôr aprendi que a profissão de humorista é, acima de tudo, política. Ele sabia de quem e do que rir;, conta, com emoção. ;O riso é uma arma poderosamente ácida, altamente corrosiva. Pode ser usada para o bem ou para o mal. Esse poder gera uma grande responsabilidade. Foi essa responsabilidade que Millôr me ensinou;, explica Gregório.

Questões polêmicas
Outros nomes importantes estarão em cena na edição de 2014. Um deles é Glenn Greenwald, escritor que vazou detalhes da espionagem norte-americana, denunciando a quebra de sigilo de correspondência e as afrontas ao direito de privacidade proferidas pelo governo estadunidense. Greenwald falará na mesa Liberdade, liberdade, com Charles Ferguson, documentarista vencedor do Oscar por Trabalho Interno, reportagem que escancara verdades sobre a crise econômica mundial.

O escritor e antropólogo Eduardo Viveiros de Castro participará da mesa Tristes Trópicos, discutindo com Beto Ricardo a presença e o pensamento ameríndio no Brasil. Werneck afirma que Viveiros de Castro ;é numa referência importante, pois sua política não está localizada na polarização partidária. Ela é de outra ordem;. Na mesma voga, o xamã Davi Kopenawa contará a história e as origens do povo Yanomami, publicadas no livro A queda do céu. ;Davi é um intelectual da floresta. É um orgulho incoporar o pensamento indígena à Flip. Os índios escreveram a história do Brasil desde muito antes de 1500. Seria um absurdo não estarem na programação;, reflete o curador.

Jornalismo
Graciela Mochkofsky, jornalista argentina que retrata, em Pecado Original, a conturbada relação dos Kirchner com a mídia, estará na mesa Narradores do Poder, em presença do renomado jornalista americano e colunista do New York Times, David Carr. Para Werneck, ;Carr é um sujeito que escreve a verdade e não teve papas na língua ao contar a história da demissão da própria chefe, Jill Abramson;. Há menos de duas semanas a chefe de redação do NYT foi demitida. Carr fez uma extensa reportagem sobre o ocorrido, ouvindo as fofocas da redação, confrontando versões e criticando a posição do próprio jornal em que trabalha.

Na mesa Livre como um táxi, o cronista brasileiro Antônio Prata e o escritor paquistanês Mohsin Hamid trazem à luz o uso do humor e da crônica de costumes para retratar o mundo e a si mesmos. Os autores se utilizam da literatura e da comicidade para andarem em terrenos bem espinhosos. Como ficar podre de rico na Ásia emergente, de Mohsin, é um falso livro de autoajuda que mostra a tragédia de uma cidade asiática que bem poderia ser brasileira. Em Nu, de Botas, Prata faz um doce revide à alfinetada do pai, Mario Prata, que certa feita publicou a crônica: ;Filho é bom, mas dura muito;. ;O humor tem este salvo-conduto. Por estar vestido de nariz de palhaço, chega a lugares que o discurso direto não alcança, libera conteúdos inconscientes e fala verdades fingindo que não está dizendo;, elabora Prata em entrevista ao Correio.



12;Festa Literária Internacional de Paraty
Os ingressos podem ser adquiridos a partir do dia 30 de junho. Custam R$ 46 (inteira) e R$ 23 (meia). Para a tenda dos autores, o valor é de R$ 12, e, para a tenda do telão, R$ 6. Os ingressos serão vendidos pela internet, pelo telefone 4003-5588 e nos pontos de venda credenciados até o dia 29 de julho. Durante os dias de festival, poderão ser adquiridos apenas na bilheteria, em Paraty.

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