Casa própria ficou mais fácil com o real

Casa própria ficou mais fácil com o real

Nas últimas duas décadas, o volume de crédito à compra de moradias aumentou 7.287%. Os juros caíram e a renda foi preservada

» CELIA PERRONE » NÍVIA RIBEIRO
postado em 02/07/2014 00:00
 (foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)


A economista Pâmela Marra acabou de comprar um apartamento de um quarto, sonho que acalentava desde muito jovem. Pagará o imóvel ao longo de 20 anos. ;Queria, de todo jeito, me livrar do aluguel. Acho um desperdício de dinheiro;, diz. Aos 24 anos, ela não tem a menor noção do quanto foi difícil para toda uma geração de brasileiros, incluindo os pais dela, realizar o sonho da casa própria. Antes da edição do Plano Real, em julho de 1994, assumir dívidas era um risco enorme, devido ao estrago provocado pela hiperinflação no orçamento doméstico.

Mesmo os que tinham renda suficiente para ingressar no Sistema Financeiro de Habitação (SFH) padeciam. Os juros eram absurdos e, por temerem calotes, os bancos recusavam a maioria dos candidatos à compra de moradia. ;Assumi uma dívida de R$ 350 mil. E tenho certeza de que vou pagá-la antes do previsto;, afirma Pâmela, saboreando os benefícios da estabilidade.

O crescimento do mercado imobiliário durante os 20 anos do Real foi espetacular. Em 1994, os bancos financiaram apenas 61 mil imóveis para a classe média. Neste ano, serão 609 mil ; um salto de 900%. O volume de recursos liberados pelas instituições financeiras acompanhou o processo de multiplicação. Passou, no mesmo período, de R$ 1,7 bilhão para R$ 125 bilhões, crescimento de 7.287%.

;Houve uma combinação de fatores positivos nas últimas duas décadas;, diz Flávio Prando, vice-presidente de habitação econômica do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP). O primeiro deles, o controle da inflação. O Brasil saiu de índices anuais superiores a 2.000% para taxas de um dígito. Ao longo do processo de estabilização, a oferta de empregos aumentou e o poder de compra se manteve protegido, permitindo a tomada de crédito.

Os governos que se sucederam trataram de aprimorar as leis e dar mais garantia e rapidez ao sistema financeiro para retomar os imóveis em caso de calote. O marco nesse sentido se deu em 2004, com a legislação que instituiu a alienação fiduciária e separou os empreendimentos do caixa das construtoras, mecanismo conhecido como patrimônio de afetação. Se uma empresa quebrar no meio do caminho, as obras são transferidas para outras companhias, sem prejuízos aos mutuários. ;Não foi à toa, portanto, que os bancos abriram os cofres;, ressalta Prando.

Com a maior oferta de dinheiro, as instituições financeiras reduziram as taxas de juros. Hoje, é possível pagar a casa própria com encargos variando entre 6% e 10% ao ano, mais a variação da Taxa Referencial (TR). Melhor: as prestações podem ser quitadas em até 35 anos, fazendo com que os valores se encaixem no orçamento familiar. Por isso, tantas pessoas da nova classe média estão conseguindo trocar o aluguel pela moradia que tanto desejam. ;Imóvel passou a ser muito mais visto como patrimônio, não como um investimento especulativo, algo muito comum do período hiperinflacionário;, destaca o vice-presidente do Secovi-SP.

Testemunha dos tempos de descontrole dos preços, o aposentado Milton Santos, 64, fica arrepiado ao se lembrar das dificuldades enfrentadas pelos brasileiros antes do Real. ;Era o caos;, relata. ;Pensar em ter a própria moradia era quase um ato de loucura;, emenda. Para ele, felizmente, o Brasil se curou da hiperinflação e os salários foram preservados. ;Digo sempre para os meus filhos: aproveitem a estabilidade econômica para planejar o futuro, que passa pela compra da casa própria;, frisa.

O aposentado vai além. ;Sempre gostei de ter o meu espaço, sem depender de aluguel, e fiz questão de que meus filhos também levassem isso para suas vidas;, conta. Santos comprou o primeiro apartamento em 1992, por meio de financiamento. Enfrentou problemas para honrar as prestações. Mas, após o Real, conseguiu poupar e quitar os débitos antecipadamente. Em 2007, adquiriu um outro imóvel, por R$ 225 mil. Em quatro anos, livrou-se da dívida. ;A tranquilidade na economia nos dá essa condição de adquirir um bem, quadro diferente do que eu vivi décadas atrás e que muitos jovens nem imaginam como era;, enfatiza.

Na avaliação de Miguel Oliveira, diretor executivo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), mantida a estabilidade da moeda, o mercado imobiliário avançará muito mais. Primeiro, porque os bancos estão dispostos a darem crédito. Segundo, porque ainda há um deficit habitacional enorme no país. ;Diante de prazos tão extensos para pagar as moradias, basta que o brasileiro se planeje para realizar seu sonho;, afirma.

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