Entre a dor e a revolta

Entre a dor e a revolta

Israel prepara resposta ao assassinato de três jovens capturados na Cisjordânia e estuda expandir colônias. Em discurso no sepultamento das vítimas, Netanyahu promete não descansar até encontrar os culpados

GABRIELA WALKER RODRIGO CRAVEIRO
postado em 02/07/2014 00:00
 (foto: Baz Ratner/Reuters)
(foto: Baz Ratner/Reuters)







Milhares de israelenses se reuniram, ontem, no cemitério da cidade de Modi;in para acompanhar o enterro dos três jovens sequestrados na Cisjordânia, em 12 de junho. O clima de tristeza provocado pela morte dos adolescentes seminaristas Eyal Yifrach, 19 anos, Naftali Frenkel e Gilad Shaer, ambos de 16, se misturou a sentimentos de revolta. Confrontos antiárabes eclodiram no país, deixando quase 30 presos. Preocupados com o acirramento das tensões no Oriente Médio, líderes internacionais pediram serenidade. Durante a cerimônia em Modi;in, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente, Shimon Peres, prometeram encontrar os culpados pelo crime e combater ;terroristas;.

Em resposta à suposta ação de militantes do movimento fundamentalista islâmico Hamas, o premiê e o ministro da Defesa, Moshe Ya;alon, propuseram a construção de novos assentamentos, segundo informações do jornal Haaretz. O avanço sobre territórios em disputa seria uma alternativa a ofensivas militares, defendidas por parte das autoridades locais. A ministra da Justiça, Tzipi Livni, se opôs à criação de colônias, ao argumentar que a decisão acabaria com a legitimidade de Israel ante a comunidade internacional e transformaria uma tragédia local em questão política. ;É errado dividir a nação ao longo de linhas ideológicas;, defendeu Livni, citada pelo Haaretz. Naftali Bennett, ministro das Relações Exteriores, apresentou uma lista com oito possibilidades de operações militares, incluindo um avanço de larga escala sobre a Faixa de Gaza, informou o jornal.

O porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, pediu que palestinos e israelenses não tomem medidas capazes de desestabilizar a região. ;Houve uma cooperação entre a Autoridade Palestina e Israel, quando investigaram em conjunto o desaparecimento dos três jovens e tentaram devolvê-los vivos a seus lares;, lembrou Earnest, ao ressaltar a importância do ;espírito de cooperação; entre as partes. As Nações Unidas, o Vaticano e diversos países condenaram o assassinato e pediram cautela. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro reprovou ;veementemente o sequestro e o hediondo homicídio; dos rapazes, e conclamou ;todas as partes a respeitarem suas obrigações; para evitar ;quaisquer atos que levem à escalada das tensões;. Anteontem, um porta-voz do Hamas tinha alertado que, caso Israel lance uma campanha militar, abriria ;a porta do inferno;.

Em discurso durante o enterro, Netanyahu reforçou a mensagem de que Israel não descansará até encontrar os culpados. ;A nação inteira permaneceu unida e nos lembrou de quem somos, por que estamos aqui e de que a grande força está dentro de nós. Hoje, transformou-se espontaneamente em um dia de luto nacional;, declarou. Ao dirigir-se às forças de segurança, Peres afirmou saber que eles ;vão capturar os assassinos, que serão punidos. Israel vai bater duro até o terrorismo ser extirpado;, afirmou.

Medo

As buscas pelos dois principais suspeitos da morte dos adolescentes ; Marwan Kawasmeh, 29, e Amar Abu-Isa, 32 ; prosseguiram durante todo o dia de ontem. Os dois são palestinos e membros do Hamas. Segundo informações da inteligência israelense, eles estariam no carro que parou para oferecer carona às vítimas. Ambos estão desaparecidos desde 12 de junho, quando os jovens foram raptados. Na madrugada de ontem, 34 alvos na Faixa de Gaza foram bombardeados, ferindo duas pessoas. Um militante do Hamas foi morto, depois de lançar uma granada contra forças de Israel na Cisjordânia.

Moradora da Cidade de Gaza, a dona de casa Sally Idwedar, 30, disse aguardar pelo pior. As bombas que caíram na madrugada de ontem sobre o território palestino pareciam o prenúncio de uma longa guerra, descreveu. ;Não sabemos quem matou esses garotos. As pessoas daqui estão muito nervosas com o fato de que nossos irmãos e irmãs da Cisjordânia estão sendo atacados. Sempre esperamos uma guerra e não há nada que possamos fazer;, afirmou ao Correio, por meio da internet. ;Os ataques aéreos foram muito intensos. Eram explosões constantes, eu podia ver flashes amarelados no céu. O som das bombas foi muito alto. Podíamos escutar a Marinha disparando de navios. Tudo tremia em minha casa, e o vidro das janelas chacoalhou;, relatou.

Por sua vez, o escritor israelense David Ha;ivri, 47 anos, morador do assentamento de Kfar Tapuach (Cisjordânia), crê que Netanyahu interpreta o assassinato dos jovens como uma janela de oportunidade para enfraquecer o Hamas. ;O processo de Oslo está apodrecido. A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) jamais poderia ter recebido tanta autoridade na Cisjordânia. A solução de dois Estados é errada e somente vai levar a sofrimento para ambas as partes;, opinou, também pela internet.


Como palestinos e israelenses veem a escalada de tensão?

Sayel Al-Wahidi,
22 anos, estudante palestino, morador da Cidade de Gaza




;Todo esse processo foi uma mentira fabricada por eles (israelenses). Nós esperamos a guerra em Gaza, e temos aguardado isso todos os dias. Ainda não mostraram fotos dos mortos. Todos estamos focados na guerra, e o medo domina a cidade e os cidadãos. Estamos prontos para a batalha e não nos importamos para o que Netanyahu diz.;

Issam Sammour,
30 anos, ativista palestino,
morador da Cidade de Gaza




;Israel falhou em sua política com os palestinos ao romper as negociações de paz. Eles insistem em construir colônias. Depois do desaparecimento de três israelenses na Cisjordânia, as forças israelenses aplicaram uma punição coletiva aos palestinos, matando 7 e detendo 500.
Não temos fronteiras nem combustível. A guerra é algo possível agora.;

Mousheera Jammal,
29 anos, jornalista palestina, moradora da Cidade de Gaza




;Não temos certeza se os palestinos mataram esses jovens. Mantivemos (Gilad) Shalit por mais de seis anos. Por que mataríamos três soldados agora? Isso tudo é confuso, pois a operação ocorreu na Cisjordânia. Os israelenses criaram essa história porque desejam destruir os esforços de reconciliação. Eles nãos nos querem unidos.;

David Ha;ivri,
47 anos, escritor israelense, morador de Kfar Tapuach (Cisjordânia)




;Eu me sinto terrível com a morte dos três israelenses e não espero muito do gabinete de Benjamin Netanyahu, a não ser mais do mesmo do que temos visto ao longo das últimas três semanas. O premiê decidiu pressionar ou punir o Hamas. Se Israel conseguir alvejar a infra-estrutura de terror do Hamas, os militantes terão menos meios de nos aterrorizar.;

Meital Bonchek,
37 anos, ativista israele

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