Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

Sob o céu do Recife

por Conceição Freitas >> conceicaofreitas.df@dabr.com.br
postado em 02/07/2014 00:00
Vem da Florença dos Trópicos, como a designou Camus, um dos exemplos mais evidentes de que as cidades estão reagindo à intervenção predatória da especulação imobiliária. Dezenas de moradores de Recife, entre eles estudantes, arquitetos, artistas, professores e advogados, têm acampado em locais estratégicos para impedir a construção de um mega-condomínio de 12 torres de até 41 andares no antigo cais e vila ferroviária remanescente do século 19, hoje lugar de moraria da população miserável e do tráfico de drogas.

A retirada dos ativistas da área do cais, no mês passado, foi um espetáculo de truculência policial. Segundo os ativistas, 35 ficaram feridos por balas de borracha e golpes de cassetete. De um lado, um poderoso consórcio imobiliário, de outro, o movimento social Direitos Urbanos.

Os ativistas brigam pelo céu do Recife. A beira-mar foi toda ocupada por um paliteiro (é a nona cidade com maior número de arranha-céus das Américas). Restou a parte degradada da cidade, o centro antigo, o cais, onde o Rio Capibaribe se dissolve no mar.

O rio mítico, o caracol que se contorce dentro da cidade, o Capibaribe de O cão sem plumas, um dos mais belos e conhecidos poemas de João Cabral de Melo Neto (A cidade é passada por um rio / como uma rua; / é passada por um cachorro/ uma fruta / por uma espada).

Os ativistas em defesa do chão e do céu do Recife agem em várias frentes. Cinco ações judiciais tentam barrar a execução do projeto Novo Recife, o das torres de 40 andares. O embate corpo a corpo não terminou na retirada violenta dos manifestantes da área do cais. Expulsos, os ativistas acamparam do lado de fora da área cobiçada pela especulação imobiliária.

Nesta semana, 50 deles ocuparam a Prefeitura do Recife para reivindicar a participação do movimento Ocupa Estelita nas novas negociações sobre o projeto imobiliário. No meio da tarde dessa terça-feira, os ativistas deixaram o hall da Prefeitura em obediência ao mandado de reintegração de posse expedido pela Justiça.

Os recifenses têm tradição de luta. A primeira ocupação urbana da cidade, Brasília Teimosa, surgiu no fim dos anos 1940, mas ganhou força durante a construção de Brasília. Foi o modo que os moradores encontraram para chamar a atenção de Juscelino: enquanto o país construía uma capital moderna, os sem-teto do Recife viviam em constante ameaça de expulsão. O governo demolia os barracos à noite e os moradores a reconstruíam no dia seguinte. Teimosos, venceram.

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