O tom da desconfiança

O tom da desconfiança

Mulheres vestidas de vermelho tendem a ser vistas por outras como mais disponíveis sexualmente e menos confiáveis, aponta estudo norte-americano. Segundo os autores, essa reação tem origem na história evolutiva da humanidade

» ISABELA DE OLIVEIRA
postado em 12/07/2014 00:00
Não é a toa que o vermelho é classificado como uma cor quente. O tom é associado ao romance e à sexualidade, e suas referências aparecem tanto na ficção ; caso do filme A dama de vermelho, dirigido e estrelado por Gene Wilder em 1994 ; quanto na vida real, com as casas da luz vermelha. Na natureza, fêmeas de várias espécies, por exemplo entre babuínos e chimpanzés, se valem de ornamentações com essa coloração para atrair parceiros. Elas exibem a cor na face, no peito e na genitália quando entram no cio. Um estudo publicado esta semana na revista Personality and Social Psychology Bulletin demonstra que o tom rubro costuma mesmo ser associado pelas pessoas ao desejo ou à disponibilidade sexual.

Alguns estudos anteriores sugeriram que homens tendem a se sentir mais atraídos por mulheres com roupas vermelhas. Na pesquisa mais recente, conduzida por Adam Pazda, da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, o foco foi a reação das mulheres diante de outra usando esse tom. O pesquisador realizou uma sequência de três experimentos (veja infografia ao lado) nos quais pedia para que voluntárias emitissem opiniões sobre algumas mulheres mostradas em uma foto. Em algumas imagens, as retratadas estavam de branco, em outras de vermelho. Ao observar as imagens, as participantes diziam se concordavam muito ou pouco com afirmações como ;Essa pessoa está interessada em sexo; ou ;Eu apresentaria essa pessoa ao meu companheiro;.

De maneira geral, as voluntárias consideraram as mulheres de vermelho mais receptivas sexualmente do que as de branco. Elas também foram menos abertas à ideia de que seus parceiros conhecessem as vestidas com a ;cor quente;. Os resultados indicaram ainda que essa percepção era parecida entre as solteiras (que representavam 31% do grupo) e aquelas em um relacionamento estável (69%).

Os experimentos também mostraram que o vermelho despertava um sentimento de rivalidade. O critério para chegar a essa conclusão é a ligação da tonalidade à infidelidade. Esse aspecto foi considerado importante pela seguinte razão: homens que tendem a buscar relacionamentos casuais preferem parceiras fisicamente atraentes e sexualmente disponíveis. Isso, sugere o estudo, leva as mulheres a adotarem estratégias de autopromoção alterando sua aparência física para se adequar às preferências masculinas. E assim surge a competição.

Competição
Uma das estratégias femininas mais frequentes, descreve Pazda, é utilizar a agressão indireta ; nesse caso, menosprezar ; às rivais. O comportamento não é aleatório e costumas ser direcionado para características valorizadas pelos homens, como a fidelidade. Ao longo da evolução humana, defende o pesquisador, a baixa atividade sexual feminina teria emergido como uma característica estimada por eles, especialmente para relacionamentos de longo prazo. Isso viria do fato de os homens nunca terem certeza absoluta da paternidade.

;A escolha de companheiras sexualmente exclusivas reduz as chances de um macho investir na sobrevivência e na criação de uma prole que não é geneticamente relacionada com ele. Assim, para as mulheres, julgar uma outra negativamente, com base nas experiências sexuais que ela teve ou que parece ter tido, aumenta o valor próprio. Nossos estudos mostraram que a situação financeira, por outro lado, tem pouca relevância;, conta Pazda.

Embora iniciar o contato com alguém do sexo oposto seja considerado um papel quase que exclusivamente masculino, pesquisas sobre comportamento e linguagem corporal mostram que a iniciativa é, na verdade, das mulheres, que utilizam para isso ornamentos, especialmente roupas. Um estudo publicado pelo biopsicólogo irlandês Nigel Barber relatou, por exemplo, que o comprimento das saias diminui assim que a concorrência por homens aumenta. ;O rosto, o pescoço e a parte superior do tórax apresentam rubor quando há excitação sexual. Uma das possibilidades é que as mulheres escolham esse vestuário como uma tentativa de mimetizar ou estender, simbolicamente, esses processos vasculares naturais;, diz Andrew Elliot, coautor do estudo. Além disso, Elliot sugere que é possível que as mulheres observem que há uma maior aproximação dos homens quando elas vestem vermelho.

;Elas podem, dessa maneira, escolher os modelos como uma forma de chamar mais a atenção para si. Essa observação indica que a percepção masculina é, de certa forma, fundamentada. Em suma, a roupa vermelha parece um meio para as mulheres sinalizarem a sexualidade imitando processos fisiológicos básicos e ainda atenderem as preferências masculinas;, especula o pesquisador. Estudos anteriores já indicaram evidências de que a pele facial das mulheres se torna ligeiramente mais vermelha quando alcançam a metade do ciclo fértil.


Palavra de especialista

Cultura e evolução
;Além de estudos com primatas, existem trabalhos com ratos mostrando a influência das cores no comportamento. Não podemos esquecer que as questões culturais influenciam o significado que atribuímos às cores. O branco pode ser visto com pureza em algumas sociedades e não em outras. Mas, em pesquisas, vemos que existem alguns sentimentos desencadeados de forma universal. Nota-se que, de forma geral, cores quentes, como o vermelho, desencadeiam excitabilidade e maior atividade cognitiva, podendo chegar à raiva e à hostilidade. A cor vermelha nos órgãos sexuais de fêmeas de chimpanzés é sinal de fertilidade e desencadeia sentimentos de conquista e agressividade nos machos. No ser humano, o rubor na face e no pescoço é resposta fisiológica associada à excitabilidade e à fertilidade, uma influência evolutiva bem interessante. Assim, a escolha da roupa vermelha pode ter diferentes conotações. Pode haver um desejo claro de conquista, ou mesmo haver um desejo pouco consciente, que remonta a nossos resquícios evolutivos e fisiológicos.;
Maria Cecília Freitas, doutora em saúde mental pela USP, professora da UnB e membro do grupo InDor de Brasília

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