Passarela do tango

Passarela do tango

Macarronada na lata, refrigerante comunitário, churrasquinho e banho improvisado. Correio testemunha o "desfile" sem luxo dos argentinos acampados na Marquês de Sapucaí à espera do fim do jejum de 28 anos sem título mundial

postado em 12/07/2014 00:00
 (foto: Marcos Paulo Lima/CB/D.A Press)
(foto: Marcos Paulo Lima/CB/D.A Press)

Rio de Janeiro ; Se a imagem do Brasil lá fora é futebol e carnaval, a Argentina chegou de mala e cuia em dois templos sagrados do país, sentou à vontade e colocou o pé na mesa. O país vizinho pode ser tricampeão mundial amanhã, no Maracanã, contra a Alemanha. Antes, transformou o Sambódromo em ;tangódromo;. Acampados na Marquês de Sapucaí e no Terreirão do Samba, os torcedores da esquadra de Messi deixam craques como Cartola e Jamelão em segundo plano. Na concentração, só falta o grito de ;chegou a hoooora;, famosa convocação dos puxadores antes da entrada na Praça da Apoteose.

Ao contrário dos desfiles de carnaval, o espaço destinado pela Prefeitura do Rio aos hermanos sem teto e ingresso não tem nada de luxo. O tangódromo parece uma favela. Barracas se espalham pelo chão. Roupas secam em varais coletivos improvisados. Integrantes da comunidade alternativa passam com sacolinhas de supermercado com o alimento que o dinheiro permitiu comprar. Enquanto a reportagem transita pelo local, um malabarista que trouxe até o cachorro Índio para festejar o título da Argentina avisa: ;Não repara a bagunça não, choveu muito essa noite, e a barraca não suportou;, diz José Missionero, com a bagagem espalhada no chão.

Mais cinco passos, e cinco amigos improvisam uma macarronada na hora do almoço em uma lata. A água ferve, e o espaguete é cozido sob um céu nublado. ;Se chover, o nosso almoço vai que nem o Brasil, por água abaixo;, provoca Juan Kelly, um dos integrantes do quinteto que viajou 2.800km de Mar del Plata ao Rio de Janeiro faminto pelo tri. ;Só não podemos continuar com fome de títulos. Fomos roubados por eles (Alemanha), em 1990;, observa o viajante.



Pelo tangódromo, desfilam personagens alegóricos. Um deles prefere ser chamado de Papo Coppo. ;Pode me chamar assim, é o meu nome artístico. Compre o meu CD para eu poder comer hoje à noite;, implora, de olho grande no ;asado; (churrasco argentino) dos compatriotas ao lado. Na praça de alimentação, além de macarronada e churrasco, há hambúrguer, pão com linguiça (;chorizo;) e muito refrigerante. Na Marquês de Sapucaí, uma garrafa de três litros perdeu o gargalo. ;Não temos dinheiro para comprar mais de uma e muito menos copo. Rasguei a abertura para cada um tomar um pouquinho;, explica Carlos Mago, a poucos metros da Praça da Apoteose.

Quatro chuveiros
Na saída do tangódromo, um senhor de 60 anos desfila com uma toalha e uma saboneteira na mão. Estava feliz da vida, acabara de tomar banho. ;Todo mundo aqui divide quatro chuveiros, dois para mulheres e dois para homens;, conta, mostrando a barraca azul que circulou por Rio, Belo Horizonte, Beira-Rio, São Paulo e Brasília antes de voltar à Cidade Maravilhosa. ;Venceremos por 1 x 0, gol do Messi, e, aí, sim, o senhor passa aqui depois do jogo para ver o que é um desfile de carnaval;, brinca Eduardo Pérez, fechando a porta da barraca em mais uma cena de desmoralização do país do futebol e do samba.

70 mil
Total de argentinos esperados no Rio até amanhã

13 mil
Quantidade de ingressos da final vendidos a argentinos

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