Poeta confesso

Poeta confesso

Pablo Neruda completaria hoje 110 anos. Morto em 1973, sua obra permanece viva e a ele são prestadas homenagens no Chile

Mariana Vieira
postado em 12/07/2014 00:00
 (foto: Álbum familiar de Mercedes Barcha/FNPI/Reprodução)
(foto: Álbum familiar de Mercedes Barcha/FNPI/Reprodução)




Um homem só pode morrer uma única vez. Mas um poeta, ainda que morra mil vezes, permanecerá vivo enquanto for celebrada a sua poesia. Hoje, há 110 anos, nascia no interior do Chile, na cidade de Parral, Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, o menino que viria a ser conhecido como Pablo Neruda. Teve seus primeiros poemas publicados aos 14 anos e nunca mais parou. Ao longo da vida, trabalhou como professor de francês, editor de revistas, cônsul do Chile em diversos países, mas, acima de todos esses afazeres, foi uma das grandes vozes da poesia da América do Sul.

;Pablo Neruda deve ser lembrado por si só, no sentido da essência pela pessoa e pelo poeta que foi;, afirma Fernando Sáez, diretor da Fundação Pablo Neruda em Santiago, no Chile. Por lá, as comemorações hoje contam com um apelo tecnológico. Uma imagem holográfica do poeta percorrerá as ruas da mesma forma como ele fazia em vida. Com a técnica de projeção em movimento denominada beamvertising, o holograma do autor de Canto geral sairá da casa museu La Chascona, no bairro de Bellavista, após aparecer escrevendo.

A celebração de aniversário incluirá ainda a doação da Biblioteca Multilíngue Pablo Neruda à escola Villa Las Estrellas, situada na Ilha do Rei George, na Antártida, onde convivem bases de diversos países. O poeta, que chegou a receber o Nobel de Literatura em outubro de 1971, morreu em 23 de setembro de 1973, duas semanas depois do golpe militar que levou Augusto Pinochet ao poder naquele país, duro trauma para um socialista assumido e defensor da liberdade incondicional, na vida e na poesia.


Obras inéditas

Os fãs do poeta têm mais um motivo especial para comemorar a data. Foram anunciados no mês passado a descoberta de 20 poemas inéditos de Neruda. ;Trata-se de um trabalho muito minucioso de pesquisa, página por página, de manuscritos dele;, conta o diretor da Fundação Pablo Neruda, Fernando Sáez.
Não se trata de poemas que estavam guardados nem foram os últimos do poeta. ;São textos escritos entre os anos de 1955 e 1970 e que, por algum motivo, não entraram nos livros que ele publicou nesse período;, explica.

São seis poemas sobre amor e mais 14 de outros temas. A pesquisa total, conduzida pelo diretor da biblioteca da Fundação Pablo Neruda, Darío Oses, durou quase três anos. Em seguida, o material foi submetido a novas revisões para ter a segurança de que eram realmente inéditos.
;Não foi possível determinar a data de todos esses poemas, porque nem todos têm a indicação da data em que foram escritos, pois o poeta colocava a data só às vezes;, conta Oses. O material tem publicação prevista para este ano pela editora Planeta.

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Leia três poemas de Pablo Neruda e entrevista com o professor de teoria literária da UnB Alexandre Pilati.



Cinco perguntas
Fernando Sáez

Qual a importância de se recordar Pablo Neruda?
Deve ser lembrado por si mesmo! Pela essência dele, foi um dos poucos poetas que permanecem vivos, na popularidade e na leitura.

O poeta chileno tem uma linguagem universal?
Com certeza. Os principais temas da poesia dele ; a natureza, o amor, os animais, o mar e as coisas simples ; são assuntos que podem facilmente interessar a qualquer um.

Qual é a importância de Neruda para a poesia da América do Sul?
Acredito que seja na América do Sul que ele tem mais seguidores ; um pouco óbvio. Mas, de qualquer maneira, ele abriu uma porta no exterior para toda a poesia hispânica. Por isso tanta gente seguiu essa tradição, não no sentido de escrever como ele, mas de honrar a poesia hispânica.

Qual foi a relação que Pablo Neruda com o Brasil?
Ele foi muitas vezes ao Brasil, havia por aí um movimento ideológico e intelectual que o atraía. Era onde estava acontecendo muita coisa, e ele se aproximou de artistas brasileiros.

E com o poeta Vinicius de Moraes?
Eles não se encontravam com muita frequência, mas eram amigos. Vinicius sempre foi um celebrador da vida, assim como Neruda. Eles tinham uma afinidade poética, uma sensibilidade em comum. Quando lemos os poemas que trocaram, as cartas, fotografias, percebemos que é um material que revela uma amizade sincera e profunda, uma admiração mútua.

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