"É muito fácil errar nas redes sociais"

"É muito fácil errar nas redes sociais"

Pesquisador analisa os caminhos, descaminhos e armadilhas das disputas políticas com a participação das redes sociais

JOÃO VALADARES
postado em 12/07/2014 00:00





Pesquisador brasileiro da área de engenharia de software e tecnologia da informação, o cientista-chefe do Centro de Estudos Avançados do Recife (C.e.s.a.r), Silvio Meira, analisa como as redes sociais estão sendo utilizadas nas campanhas políticas. Na entrevista por telefone, avalia que todos os candidatos que tentam potencializar o desempenho nas urnas por meio da presença social na internet ainda precisam aprender bastante. Meira diz que é impossível cravar se a internet vai decidir a eleição no Brasil, mas deixa claro que quem quiser ter sucesso eleitoral precisa marcar território nas redes sociais. O cientista avalia a maturidade das plataformas digitais no país e acredita que o debate mais aprofundado de propostas dos candidatos depende fundamentalmente do nível de educação do povo. ;O fato de colocarmos mais internet na mão de mais gente não significa que todo mundo se educou e que está pronto para debater suas preferências ou seus preconceitos sem entrar numa briga". O Correio publica, na íntegra, a entrevista que teve trechos divulgados no domingo passado.


Existe um padrão para definir o que é uma boa campanha eleitoral na internet?

Não existe um padrão. Existem contextos e dentro desses contextos há práticas que são recomendáveis. Para você comparar rapidamente, posso dizer que um número significativamente grande do que as pessoas falam sobre os EUA não é aplicável ao Brasil. Nos EUA, a lista de votação é pública e eu consigo recuperar porque faz parte dos dados abertos do Estado. Posso minerar esses dados nos EUA e saber, em cada seção, por exemplo, quem foi que votou na última eleição. A partir desse dado e do local de onde ele vem, posso entrar no Facebook e saber quem são essas pessoas e quem são os amigos deles. Posso minerar os dados e saber se eles têm uma posição mais liberal ou mais conservadora e aí posso tentar influenciar as pessoas diretamente. A quantidade e qualidade de dados que existem para você fazer uma articulação em rede social a partir de informações publicamente disponíveis nos EUA é totalmente diferente do que nós temos no Brasil. É muito mais fácil você articular uma campanha eleitoral nas mídias sociais nos EUA do que no Brasil.

Como clarear essa trilha no Brasil?
Não se trata de uma campanha na cega. De jeito nenhum. No Brasil, temos pesquisas eleitorais quantitativas e qualitativas fora da internet. Temos um número de ferramentas muito grande, várias delas brasileiras, que estão disponíveis na internet para você capturar o sentimento das pessoas. Como no Brasil você tem uma parcela significativa da população on-line no Facebook, que é a efetiva e verdadeira grande rede nacional porque você não tem robôs como no Twitter e é uma rede de relacionamento mesmo, você pode interpretar o comportamento das pessoas em relação a um número muito grande de aspectos. Isso já vem sendo usado. Para quem você faz uma campanha seja na rede social ou não? Se faz para os indecisos e para aqueles que não votaram. Se a gente tivesse na idade da pedra, quem dominasse polir pedra para fazer arma estava por cima da carne seca.

No Brasil, os candidatos apenas transportaram a linguagem tradicional de campanhas políticas para a plataforma digital. Podemos falar de uma linguagem de marketing político própria para a internet?
Você tem razão. E vai demorar muito tempo. É um processo de aprendizado. De aprendizado para todo mundo. Não só estão aprendendo as pessoas que fazem marketing político na internet. Estão aprendendo as próprias pessoas que estão usando a rede. Esses comportamentos são muito novos. Pense no seguinte. Como é que foram as primeiras campanhas na televisão? As primeiras campanhas na televisão usavam a mesma linguagem do rádio. E as primeiras campanhas do rádio usavam a única linguagem que existia que era a dos jornais. Mas havia uma coisa em comum. Jornal, rádio e televisão são push. Eu escrevo para você que está aí no mundo. Você não volta. Você não emite opinião quando assiste à televisão. Quando você foi para a internet, primeiro, você muda o alcance. O efeito da internet é mudar o alcance pela diminuição de ordens de magnitude do custo de você alcançar mais gente. Mas, quando a internet vira social, que leva 10 anos, aí você começa a motonivelar o ambiente. O custo de qualquer um falar alguma coisa. Deixa de existir a potência de mídia.

Então o risco é grande demais. É fácil errar numa campanha política nas redes sociais?
É muito fácil errar porque poucos times estão estruturados. O time bom e bem estruturado entende profundamente de redes sociais, o que é diferente de entender de internet. Que entende de redes sociais como primeira linguagem. Que sabe o que se transaciona em redes sociais, que é um conjunto de infraestruturas para você transacionar conectividades. Conecta muito mais do que comunica. E onde conectividade cria e depende essencialmente de reputação. Na sociologia, existe há décadas a noção científica de redes sociais. Os sociólogos, com o aparecimento das redes sociais na internet, eles simplesmente criaram uma subárea chamada de redes sociais on-line. É preciso entender que redes sociais são um ambiente de conectividade e não de comunicação. Qualquer pessoa que olhar para uma rede social e dizer que estamos aqui num ambiente de comunicação social perdeu o bonde.

Que perfil as equipes dos candidatos nas redes sociais devem ter para não perder esse bonde?

Primeiro de gente que entenda de gente e do que as pessoas pensam. Do que elas falam, quais são os seus anseios e quais são suas expectativas. Não tem nada a ver com tecnologia. Depois, esse povo que entende de gente tem que saber que gente on-line é um pouquinho diferente de gente off-line. Resumindo é o seguinte: gente que entende de gente sem ser ignorante em tecnologia e sabendo que está fazendo um negócio particular chamado campanha política.

A internet pode definir a eleição?

Faça a seguinte conta. Há 100 milhões de pessoas na internet brasileira no momento. Metade disso tem smartphones. Vamos imaginar que, nesses 50%, está distribuído homogeneamente os 20% de abstenção líquida da última eleição. Então, 10 milhões não foram votar. Para cada pessoa que vota na situação, três votam na oposição. Em algum tipo de oposição. Isso é o dado histórico. Se você convencer metade desse pessoal a votar, você tem, na situação atual, a garantia de um segundo turno. Então, a internet muda e muda mesmo. A campanha da reeleição de Obama foi decidida na internet. Totalmente decidida na internet. Você pode ler dezenas de textos que estão disponíveis na rede. Foi decidida

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