Castigo polêmico em Águas Claras

Castigo polêmico em Águas Claras

Homem tenta levar carro em um supermercado de Águas Claras, mas acaba perseguido e imobilizado pela vítima e por um amigo. Segundo testemunhas, um grupo ainda o atacou com socos, chutes e xingamentos antes da chegada da PM

» ISA STACCIARINI » ROBERTA PINHEIRO
postado em 21/08/2014 00:00
 (foto: WhatsApp/Reprodução)
(foto: WhatsApp/Reprodução)

Eram 14h40 quando o segurança do estacionamento de um supermercado da QS 3, em Águas Claras, reconheceu o barulho do próprio carro. Na hora, percebeu que o Fiat Uno vermelho parado na área externa era furtado. Recorreu, então, a um amigo. Os dois entraram em outro veículo e seguiram em busca do criminoso. A cerca de 500m, a dupla avistou o Uno parado em um semáforo e continuou a perseguição. Na altura do Condomínio Península, na QS 1 da Avenida Araucária, o colega da vítima, que conduzia o veículo, ultrapassou o bandido, reduziu a velocidade e o fechou. O suspeito deixou o automóvel armado com um canivete. Acabou imobilizado, teve as mãos e os pés amarrados e, segundo apurou o Correio, um grupo de pessoas o agrediu com socos, chutes e xingamentos.

A polícia identificou o suspeito do crime como Waldemir da Silva Queiroz, 38 anos. PMs de Taguatinga o encontraram machucado. ;Ele estava imobilizado, sujo e com ferimentos no rosto;, resumiu o sargento José Teixeira Moura Neto. Os policiais militares o conduziram à 21; Delegacia de Polícia (Taguatinga Sul), mas, como havia sangue, tiveram de levá-lo ao Hospital Regional de Taguatinga. Na unidade de saúde, Waldemir passou por uma radiografia, que não apontou fraturas. Inicialmente, o suspeito caiu de cara no chão ao tropeçar no cinto de segurança do Uno. Por portar o canivete, foi preso em flagrante por roubo, cuja pena é de 4 a 10 anos de prisão.


O Correio apurou com operários de uma obra próxima ao local da prisão que um grupo agrediu Waldemir Queiroz. Segundo um deles, havia cerca de 20 pessoas ao redor do suspeito, incluindo curiosos e aqueles que tentavam acalmar a situação. O estudante Bruno Araújo, de 34 anos, viu a movimentação. ;Primeiro, achei que fosse um acidente de moto. Depois, vi que tinham pego um homem. Deram uma rasteira para mantê-lo ali;, contou. O delegado de plantão da 21; DP Fernando César Lima de Souza, no entanto, acredita que o suspeito não sofreu espancamentos. ;Não houve ajuda de outras pessoas para bater nele (Waldemir). Elas deram a corda aos rapazes (o segurança do supermercado e o amigo) para ajudá-los.;

Impulso
O Uno vermelho estava havia uma semana com o vigilante, que, por medo, prefere não ser identificado. O carro pertence ao cunhado dele. Era emprestado porque o segurança teve o próprio automóvel furtado há um mês em Taguatinga. ;Estou tendo que remontá-lo todo novamente porque, quando achei o meu veículo, só tinha sobrado a lataria. Agora, estou gastando para colocar bancos, rodas, bateria, estepe e todos os outros acessórios. Ir atrás do Uno foi instinto;, explica o vigia, que negou ter agredido Waldemir.


O amigo dele, operador de máquina agrícola, também prefere não ter o nome divulgado. Ele conta que, quando percebeu o canivete nas mãos do criminoso, a reação foi fechar a porta do Uno em direção ao suspeito. ;Foi a reação que tive na hora. Na verdade, ainda estou em estado de choque. O suspeito se desesperou e tentou sair daquela situação, mas ele veio com o canivete para se defender. Foi aí que eu bati a porta nele;, explica.

Segundo ele, algumas pessoas se aproximaram para ajudar a imobilizar Waldemir. ;Um homem chegou e disse que tinha uma corda no carro. Aí, nós o amarramos até a chegada da polícia. Nessa hora, o homem ralava o próprio rosto no chão para tentar sair daquela situação. O que aconteceu foi uma cena de filme, algo imprevisível. Só fomos atrás por impulso;, relata.

Memória

2014


Fevereiro
Um adolescente de 16 anos (foto) foi espancado e preso, nu, a um poste por uma trava de bicicleta no início de fevereiro. A situação aconteceu na Avenida Rui Barbosa, no Bairro do Flamengo, Zona Sul do Rio. Ele teria sido atacado por um grupo de três homens, chamados de Os justiceiros. A imagem circulou nas redes sociais. O garoto era suspeito de roubos e furtos na região.

Maio
A dona de casa Fabiane Maria de Jesus, 31 anos, morreu depois de ser linchada em Guarujá, em São Paulo. As agressões contra a vítima aconteceram após um boato ter se espalhado na internet, principalmente entre seguidores de uma rede social, que afirmava existir uma sequestradora de crianças na região do litoral paulista. Ela teve traumatismo craniano e ficou internada em um hospital por dois dias. Havia sido encontrada pelos bombeiros com os pés amarrados e bastante machucada. Fabiana carregava uma Bíblia com a foto das filhas quando sofreu o ataque. Um vídeo das agressões circulou na internet.

2011

Março
Um adolescente de 14 anos deu entrada no Hospital de Base do Distrito Federal em estado gravíssimo depois de ser linchado por pelo menos seis pessoas. O garoto era um dos responsáveis pela morte de Claudiomiro de Oliveira, 40 anos, líder da equipe Calangos Bike Trilha. A vítima foi atacada por quatro criminosos, entre eles, o jovem agredido, ao voltar de uma trilha com um grupo de ciclistas pela DF-001, próximo à Quadra 800 do Recanto das Emas. Claudiomiro morreu com um tiro no peito, disparado pelo adolescente. As agressões contra o suspeito só terminaram depois que o Corpo de Bombeiros chegou ao local.

Palavra de Especialista

Vigilantismo e vale tudo

;Parece existir uma sensação difusa de insegurança atualmente, incluindo episódios diversos de crime e violência. O contexto da atual situação da segurança pública do Brasil inclui uma cifra anual de cerca de 50 mil homicídios (um péssimo recorde mundial em números brutos) e, até mesmo unidades federativas antes tidas como menos violentas, caso do Distrito Federal, contabilizam centenas de homicídios anuais. Também passaram a ser comuns os episódios em que a população interfere para evitar a consumação de crimes, indo depois ao limiar de ;fazer justiça com as próprias mãos;. Em locais com grande incidência de crime e violência, no Brasil ou fora dele, pode surgir o chamado ;vigilantismo;, o que inclui mortes e espancamentos de supostos criminosos. O extremo são homicídios por linchamento ; e faz pouco tempo ocorreu algo do gênero no Rio de Janeiro.... Há quem veja no vigilantismo a materialização de uma espécie de ;pânico coletivo;, talvez resultante da ;descrença no sistema;. Some-se a tudo isso uma visão (real ou não) de crime e viol

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