"Nós conseguimos prender esse safado"

"Nós conseguimos prender esse safado"

Vítimas de Roger Abdelmassih o receberam no aeroporto com insultos e gritos de alívio ao vê-lo preso. Elas comemoraram e garantiram que farão de tudo para mantê-lo detido. Condenado a 278 anos de prisão, o ex-médico alega inocência

RENATA MARIZ
postado em 21/08/2014 00:00
 (foto: Nelson Antoine/Agência O Globo)
(foto: Nelson Antoine/Agência O Globo)


Sob gritos de maníaco, safado e monstro, o ex-médico Roger Abdelmassih, 70 anos, foi recebido ontem no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, pouco antes das 16h. Cinco vítimas do condenado a 278 anos de prisão, acusado de 56 estupros contra 39 mulheres, estavam no local. Foragido desde 2011, Abdelmassih acabou preso na terça-feira, em Assunção, capital do Paraguai. À noite, já havia ingressado na penitenciária Doutor José Augusto Salgado, a P2 de Tremembé, no interior de São Paulo.

O ex-médico já tinha ficado no local, chamado de Presídio de Caras, por abrigar detentos famosos, como Alexandre Nardoni e Suzane Von Richtofen, em 2009. É a segunda vez dele em Tremembé. Ainda no aeroporto, antes de ser levado para a cadeia, chorou, segundo integrantes da Polícia Civil de São Paulo, ao falar dos filhos. Ele tem um casal de gêmeos com a mulher, a ex-procuradora da República Larissa Maria Sacco, 37 anos.

Abdelmassih teria dito também que a ideia de fugir para o Paraguai foi da mulher. Profissionais que acompanharam o procedimento de entrega dele pela Polícia Federal à Polícia Civil de São Paulo disseram que o ex-médico reconheceu algumas vítimas no aeroporto, mas afirmou haver ;exagero; na manifestação delas, alegando inocência das acusações. Segundo a condenação, Abdelmassih violentava e assediava as mulheres quando elas estavam dopadas durante o procedimento de reprodução assistida.

À Polícia Civil, o ex-médico citou José Genoino, ex-deputado federal do PT condenado no processo do mensalão que conseguiu prisão domiciliar devido a problemas de saúde, para alegar ter direito à liberdade. Áudio divulgado pela Rádio Estadão mostra a conversa: ;Se o Genoino pode sair por causa do problema dele, eu posso também. Eu tenho uma prótese. Isso é muito pior. Passei um período difícil. É duro você ser condenado e não existir uma gravação contra você.;

Fuga
O ex-médico foi condenado em outubro de 2010, a 278 anos de prisão. Mas não foi detido devido a uma liminar do Superior Tribunal de Justiça que dava a ele o direito de responder ao processo em liberdade. Em janeiro de 2011, porém, ao tentar renovar o passaporte, a Justiça determinou a prisão, por entender que havia risco de fuga. Em vez de se entregar, Abdelmassih fugiu. Circularam boatos de que ele estaria no Líbano, de onde veio para o Brasil ainda criança. Mas nunca se chegou ao paradeiro certo do médico, que figurava na lista de procurados da Interpol.

Até que uma investigação do Ministério Público de São Paulo sobre suposta lavagem de dinheiro levou à informação de que Abdelmassih estaria no Paraguai. Ele foi grampeado com autorização da Justiça. E, desde a segunda-feira da semana passada, era seguido por agentes da Polícia Federal em parceria com homens da Secretaria Nacional Antidrogas paraguaia. Na última quarta-feira, foi surpreendido com a voz de prisão, enquanto deixava um estabelecimento comercial com a mulher.

As primeiras denúncias contra o ex-médico, considerado à epoca o papa da reprodução assistida, surgiram em 2008. Na época, já havia pouco mais de 10 casos de abuso sexual contra ele no Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), mas que haviam sido arquivados por falta de provas. Com a divulgação das acusações, mulheres de várias partes do país, que tinham sido atendidas na clínica do ;Doutor Vida;, procuraram a polícia. Sem se conhecerem, relataram histórias de abuso sexual muito parecidas, que embasaram a condenação. O Cremesp cassou o registro de Abdelmassih em maio de 2011.


56
Número de acusações de estupro atribuídas ao ;Doutor Vida;

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