Apoio de gente poderosa

Apoio de gente poderosa

Roger Abdelmassih vivia uma vida de luxo no Paraguai e, de acordo com o ministro anti-drogas do Paraguai, ele contava com o suporte de políticos, cartolas e policiais corruptos. MP investiga suposto esquema de lavagem de dinheiro

RENATA MARIZ
postado em 21/08/2014 00:00
 (foto: EduardoAnizelli/Folhapress)
(foto: EduardoAnizelli/Folhapress)


A vida de luxo levada por Roger Abdelmassih em Assunção, capital do Paraguai, incluía uma mansão em bairro nobre, uma Mercedes e um Kia Carnival, chofer e idas a restaurantes caros. Para justificar tamanha ostentação, o ex-médico argumenta que a mulher, a ex-procuradora da República Larissa Maria Sacco, bancava as despesas da família, que inclui dois filhos pequenos. Para o Ministério Público (MP) de São Paulo, entretanto, o ex-fugitivo procurado pela Interpol se beneficiava de um esquema de lavagem de dinheiro, que incluía repasse de somas altas a empresas de fachada, para não chamar a atenção das autoridades.

Com os recursos, Abdelmassih pôde se manter lá fora. Mas teria contado com o auxílio, segundo o ministro anti-drogas do Paraguai, Luis Alberto Rojas, de gente poderosa. ;Ele tem contatos influentes, tanto no Brasil como no Paraguai, muito influentes, desde políticos, policiais corruptos e até dirigentes internacionais do futebol;, disse Rojas, em entrevista à imprensa. De hábitos refinados, Abdelmassih mantinha a discrição, embora não levasse uma vida reclusa. Na escola dos filhos, apresentava-se como Ricardo Galeano. A polícia suspeita de que ele tenha comprado um documento falso.

As informações colhidas a partir da prisão de Abdelmassih ajudarão o MP a entender como funcionava a rede de auxílio que mantinha o ex-médico foragido. Em 2010, o promotor Roberto Lisboa chegou a pedir o bloqueio de bens da mulher de Abdelmassih, mas a Justiça negou. Dessa forma, ela teria ficado livre para constituir empresas fantasmas, cuja finalidade era receber dinheiro repassado por pessoas que estão sendo investigadas, entre elas, parentes e funcionários leais do casal.

O MP começou a coletar indícios mais fortes da presença de Abdelmassih no país vizinho em maio deste ano. Uma denúncia anônima indicava que o ex-médico e a mulher estavam em uma fazenda em Avaré, interior de São Paulo. Não estavam. Mas havia pistas, como documentos, cartas, fotos e bilhetes. O MP passou a monitorar eventuais envolvidos na fuga e manutenção do foragido fora do país, com quebra de sigilo telefônico autorizada pela Justiça. Chegou, então, ao possível paradeiro dele, compartilhando os dados com a Polícia Federal, que trabalhou com instituições paraguaias para fazer a prisão.

Bigode

No Paraguai, o ex-médico não mudou radicalmente o visual. Tirou o bigode. Costumava usar óculos e boné para se disfarçar, durante o dia, segundo informações colhidas ontem nas primeiras conversas do preso com as autoridades brasileiras. Há rumores de que o ex-médico também usava peruca em determinadas ocasiões. Ele pagava cerca de US$ 5 mil pelo aluguel da casa onde morava. Os filhos estudavam em uma escola particular no mesmo bairro. A imprensa paraguaia mostrou vizinhos surpresos com a notícia de que o morador, sempre apontado como discreto, era procurado pela polícia no Brasil.

A rota completa de fuga está sendo traçada. Houve boatos de que ele estaria no Líbano. Depois, surgiram notícias de que Abdelmassih teria sido visto em uma loja em Miami. A polícia acredita que Abdelmassih saiu direto do Brasil, pela fronteira seca, para o Paraguai. Não há qualquer registro de entrada no país. Ilegal e foragido da Justiça, foi deportado de forma compulsória e imediata. Rojas, o ministro anti-drogas paraguaio, destacou um acordo entre os dois países para agilizar tais processos.


Depoimentos


"Todo mundo que foi vítima dele não pode ter uma sensação melhor do que essa justiça sendo feita. Eu tinha certeza que isso ia acontecer. Ele destruiu famílias, destruiu sonhos de mulheres, casamentos e famílias. Perdi parte da saúde, fiquei doente, não tive filho, não consegui engravidar, minha vida ficou caída. Me separei do meu marido e fiquei um ano, dois anos sem ninguém encostar em mim. Ele me fez abortar com quatro meses, sozinha em casa, sem amparo médico. Ele não me deixou ir ao hospital. Ele me mandou pegar o meu feto e colocar na geladeira, porque ele queria analisá-lo. Esse homem é um monstro. Ele pegou os meus embriões, os implantou em outras mulheres. Eu tenho filhos por aí. A gente está mostrando o rosto para essas crianças, esses adolescentes, nos encontrarem um dia.;
Maria Silvia de Oliveira Franco (à direita na foto), artista plástica

"Ele me agarrou e beijou à força. Eu estava lúcida. É difícil encarar um homem que fez o que fez com as pacientes. A defesa dele dizia que eram mulheres frustradas, que não conseguiam ter filhos, que estavam entrando na Justiça contra ele e que elas poderiam estar confundindo as coisas. Ele me agarrou e eu estava lúcida, e eu engravidei de gêmeas dentro da clínica dele. Então, eu derrubo a defesa dele. Não tem defesa. Ele é safado, é estuprador, é um monstro. Nós sabemos de detalhes terríveis do que ele fez com mulheres. Pacientes que retalharam as coxas porque era onde ele pegava. Mulheres que apanharam dos maridos, que foram abandonadas. Nós estamos aqui dizendo que agora é a nossa vez. Nós nos juntamos e conseguimos prender esse safado. Não queremos o dinheiro dele, a gente quer justiça. Ele foi condenado a 278 anos de prisão e a gente o quer preso.;
Helena Leardini (à esquerda na foto acima), dona de casa


"Foi um alívio ver que as meninas conseguiram. Esse monstro está preso. Agora, quero que venha à baila os erros médicos cometidos por ele. Em setembro de 2008, eu e meu marido, aconselhado por médicos do Rio de Janeiro, fomos à clínica dele, em São Paulo, para fazer a fertilização depois que um exame, sobre as condições do embrião, fossem feitos. Só por esse motivo. Apesar de ter pago R$ 6 mil por esse exame, ele não foi feito. Consegui provas escritas de que ele não fez porque achou que não era necessário. Meu único filho nasceu com a Síndrome de Edwards, padeceu por três meses entubado em uma UTI e morreu. Esse médico destruiu a minha vida em todos os aspectos. Agora, quero que ele seja processado pelos erros médicos, manipulação genética e todos os horrores que praticou, além dos abusos.;
Nelma Luz, 50 anos, farmacêutica e professora universitária

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