Caçando doentes mentais

Caçando doentes mentais

» GLÁUCIO SOARES Sociólogo e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Iesp-UERJ)
postado em 21/08/2014 00:00
 (foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)
(foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)

Muitos olham para os doentes mentais como criminosos em potencial. Eram chamados de ;loucos;, um estigma. Loucos causam medo, há pessoas que fogem deles, que evitam contato com eles e há os que os agridem. A associação entre algumas doenças mentais e crimes violentos é conhecida, mas poucos sabem que as doenças mentais também aumentam o risco de que o paciente seja vítima de violência, inclusive de homicídio. Ver doentes mentais como vítimas em potencial da violência é um olhar diferente, mais próximo da realidade.

Na Inglaterra e no País de Gales há poucos homicídios, relativamente ao Brasil e aos Estados Unidos. Em três anos, de 2003 a 2005, foram assassinadas 1.496 pessoas numa população de, aproximadamente, 55 milhões. Os homicídios confirmados são a base empírica para a pesquisa recém-publicada, dirigida por Louis Appleby, da Universidade de Manchester. Os autores coletaram dados sobre as vítimas e os agressores, inclusive registros de doenças mentais no ano anterior a cada homicídio. Onde havia registro, se corresponderam com o médico encarregado do caso.

O que descobriram? A principal descoberta relacionada aos objetivos da pesquisa foi que os doentes mentais têm uma probabilidade 2,6 vezes mais alta de serem assassinados do que a da população. Para evitar as mortes, é preciso dar cuidadosa atenção à interação entre pacientes: das 90 mortes, 29 foram pelas mãos de outros pacientes. Os hospitais mentais maximizam o risco porque os doentes mentais estão em constante contato com outros pacientes ; dos 29, 23 se conheciam.

As estatísticas, baseadas na prática clínica vigente no país, incluem na mesma categoria drogados contumazes e alcoólatras. É a categoria mais importante, em que estavam 93% dos doentes mentais homicidas e 66% das vítimas. Em sete casos, tanto o homicida quanto a vítima eram esquizofrênicos. Algumas doenças mentais aumentem o risco de matar alguém (no período considerado, 213 cometeram um homicídio), e as políticas públicas devem levar esse dado em consideração, mas as violências contra doentes mentais também devem ser evitadas.

Outra pesquisa, feita com a população adulta total da Suécia, cobriu o período de 2001 a 2008. A taxa de homicídios ali é invejavelmente baixa, menos de um por 100 mil habitantes (no DF é perto de 40 vezes maior). O efeito do alcoolismo é claro: mais de metade dos homicidas estavam embriagados quando mataram. Mais uma vez, a análise começa com bêbados e drogados. Os dependentes químicos também são considerados doentes mentais. O seu risco de vitimização é nove vezes mais alto do que o da população.

As pessoas com desordens de personalidade tinham risco 3,2 vezes a da população; a taxa dos diagnosticados com depressão era 2,6 vezes maior; com desordens de ansiedade, 2,2 vezes; e com esquizofrenia, 1,8 vezes. O fenômeno é geral: nos Estados Unidos, a taxa de vitimização por homicídios de doentes mentais é quatro vezes maior do que a da população.

Os autores sugerem que, em parte, o risco mais elevado se deve ao efeito-vizinhança porque alta percentagem vive em áreas pobres, desorganizadas e com altas taxas de violência. Eles sugerem que ação coordenada dos órgãos de saúde pública, da polícia e da administração de conflitos poderia reduzir a violência.

Quando os doentes mentais matam, quem eles matam? Jenny Mouzos, na Austrália, demonstra que os familiares representam a metade das vítimas, em comparação com 14% das pessoas que não são doentes mentais. Os doentes mentais também são mortos desproporcionalmente pelos próprios familiares e estão presentes nos casos de homicídio seguido de suicídio.

A polícia também precisa ser treinada ; e muito. Recentemente, em Toronto, no Canadá, Reyal Jardine-Douglas, Sylvia Klibingaitis e Michael Eligon, três doentes mentais, ameaçaram policiais com objetos perfurantes e foram mortos a tiros. Ficou claro que os oficiais responderam exclusivamente em função dos atos das vítimas e não da saúde mental deles. O júri, que isentou os policiais de responsabilidade, fez muitas recomendações, inclusive o treinamento de policiais para lidar com doentes mentais. As autoridades policiais e da saúde pública também devem alertar ; e ser alertadas ; que todos, inclusive familiares, são vítimas potenciais e agressores potenciais de doentes mentais.

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