Hamas ameaça companhias aéreas

Hamas ameaça companhias aéreas

Rodrigo Craveiro
postado em 21/08/2014 00:00
 (foto: Thomas Coex/AFP)
(foto: Thomas Coex/AFP)



A previsão era de que Rachel Levenstein, irmã da empresária Miriam Schwab, desembarcasse no Aeroporto Internacional de Ben Gurion, em Tel Aviv, por volta das 7h de hoje (1h em Brasília), após uma viagem ao Canadá. Moradora de Jerusalém, Miriam não escondia o nervosismo. Poucas horas antes, Abu Obeida, porta-voz das Brigadas Ezzedine Al-Qassam, o braço armado do movimento islâmico Hamas, tinha declarado: ;Lançamos uma advertência às companhias aéreas internacionais e as incentivamos a deixar de aterrissar em Ben Gurion a partir das 6h de quinta-feira (zero hora em Brasília);. No fim do mês passado, a queda de um foguete disparado a partir da Faixa de Gaza nas proximidade do aeroporto causou o cancelamento de diversos voos.

A nova ameaça do Hamas sucedeu a tentativa da Força Aérea israelense de assassinar Mohammed Deif, chefe do batalhão de homens-bomba do Hamas. De acordo com a rede de tevê Fox News, o líder das Brigadas Ezzedine Al-Qassam teria morrido anteontem num bombardeio à casa dele, no bairro de Sheikh Rawan, na Cidade de Gaza. A milícia usou o Twitter para desmentir a informação. ;Mohammed Deif está vivo e saudável. Sob seu comando, nós destruiremos cada cidade sionista e tomaremos toda a terra da Palestina;, afirmou. O corpo de Widad Deif, 27 anos, mulher de Mohammed, e o de sua filha de 7 meses, mortos no ataque aéreo, foram enterrados ontem. Milhares de moradores de Gaza acompanharam o funeral, aos gritos de ;vingança;. As Brigadas Ezzedine Al-Qassam prometeram abrir ;as portas do inferno; para Israel e vingar Widad e sua bebê.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, garantiu que a operação Margem Protetora, lançada em 8 de julho, somente será concluída quando a população de seu país sentir-se segura. ;Os líderes de organizações terroristas são alvos legítimos. Ninguém está a salvo de nosso fogo;, avisou o premiê. ;Se o Hamas atacar, vamos responder com força ainda maior.; O atentado contra Mohammed Deif provocou uma forte resposta dos militantes árabes, que dispararam mais de 150 foguetes em direção ao território israelense somente ontem. Em contrapartida, as Forças de Defesa de Israel (IDF) bombardearam 110 alvos em Gaza desde terça-feira. Até o fechamento desta edição, a ofensiva no enclave palestino somava 2.049 mortos, incluindo 553 crianças e 253 mulheres, e 10.224 feridos. Os foguetes palestinos mataram 64 soldados e três civis israelenses.

Preocupação
De acordo com Richard Falk, professor de direito internacional da Universidade de Princeton e relator especial da ONU sobre os Direitos Humanos nos Territórios Palestinos, a ameaça do Hamas ao Aeroporto Internacional de Ben Gurion é motivo de preocupação para Israel, ainda que jamais seja cumprida. ;Ela implica que o Hamas tem fabricado foguetes de longo alcance cada vez mais precisos, que podem ser um blefe ou reais. Se um ataque ao aeroporto ocorresse, isso escalaria imediatamente o conflito e provavelmente levaria Israel a reocupar a Faixa de Gaza;, admitiu.

Em Ramat Gan, cidade-satélite de Tel Aviv, o israelense Dor Saar, 26 anos, relatou ao Correio que as sirenes antiaéreas não soaram ontem, ao contrário da véspera. ;Quando o sistema Domo de Ferro reconhece que o foguete em aproximação não cairá em área povoada, as sirenes não tocam;, explicou. ;Mesmo se o Hamas disparar contra aviões a jato, nossas forças conseguiriam neutralizar os projéteis.; À 1h de hoje (19h de ontem em Brasília), Bassel Abuwarda, clínico-geral do Hospital Al-Shifa, o maior da Cidade de Gaza, acusou Israel de bombardear casas ocupadas por civis. ;A situação é ruim. Eles estão lançando bombas em todos os lugares;, disse. Apesar de considerar as negociações ;mortas;, o Hamas reafirmou, ontem, que não assinará qualquer acordo que não inclua a suspensão do embargo a Gaza.



Eu acho...

;Mohammed Deif é uma figura importante no círculo de liderança do Hamas. Um atentado contra ele e sua família é algo extremamente provocativo. Israel fez isso no passado, por exemplo, antes do grande ataque à Faixa de Gaza em novembro de 2012. A tentativa de assassinato deve induzir o Hamas a usar a máxima capacidade militar, o que causaria terríveis consequências humanitárias para os palestinos vivendo em Gaza, que têm experimentado enorme sofrimento desde o mês passado. Tanto Israel quanto o Hamas se engajavam apenas em negociações indiretas e apresentavam demandas que o outro lado não poderia aceitar sem parecer ter perdido ;a guerra;.;



Richard Falk, professor de direito internacional da Universidade de Princeton e relator especial da ONU sobre os Direitos Humanos nos Territórios Palestinos

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