Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

Conceição Freitas >> conceicaofreitas.df@dabr.com.br
postado em 21/08/2014 00:00
Maria Paciência dos Santos

Esse é o nome de uma trabalhadora sem-terra que morreu atropelada no último dia 12, no sudeste do Pará, segundo denúncia da CPT, a Comissão Pastoral da Terra. Maria Paciência dos Santos, 59 anos, foi atingida por um caminhoneiro que tentou furar o bloqueio feito pelos 1,5 mil manifestantes do MST que marchavam pela BR-155 reivindicando reforma agrária.

Maria Paciência dos Santos foi atropelada perto da curva do S, onde aconteceu o massacre de Eldorado dos Carajás, 18 anos atrás. (O motorista do caminhão disse que era noite e não viu Maria Paciência dos Santos).

Um dia depois, Maria Lúcia do Nascimento, ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Agricultura de União do Sul (MT), foi assassinada a tiros. Ela e famílias ocupantes do assentamento Nova Conquista haviam registrado boletim de ocorrência de ameaças praticadas pelo dono da fazenda.

Passados outros três dias, no sábado, 16, o presidente da Associação de Produtores Rurais Nova União, Josias Paulinho de Castro e sua mulher, Ireni da Silva Castro, foram mortos em Colniza (MT). Josias havia denunciado políticos da região por extração ilegal de madeira, ainda segundo a CPT.

Além dessas mortes de agosto, no mês anterior, a CPT contou sete assassinatos em 20 dias, crimes motivados por conflitos no campo.

Em nota distribuída à imprensa, a Comissão Pastoral da Terra analisa os programas dos candidatos à Presidência da República no que diz respeito às reinvindicações da gente do campo. ;O programa político de Dilma Roussef à reeleição não reserva nenhuma linha à reforma agrária. O programa de Aécio Neves passa pela tangente, somente citando a reforma agrária como necessária para garantir a segurança alimentar. O programa do PSB ainda fez duas ou três leves insinuações sobre a reforma agrária;. E conclui: ;Fica mais do que patente que a reforma agrária não é hoje prioridade para nenhum dos partidos com chance de chegar à Presidência;.

Maria Paciência dos Santos tinha no nome a longa, trágica e terrível história da concentração de terras no vasto território brasileiro. Santa paciência que não é apenas dos trabalhadores do campo, mas também dos quilombolas e das nações indígenas. (Ressalve-se que o governo atual foi o que fez o menor número de demarcações de terra de todos os governos pós-ditadura de 1964).

Paciência que vai se transformando em apatia. O número de eleitores jovens, entre 16 e 17 anos, caiu de 2,3 milhões, em 2010, para 1,6 milhão em 2014, segundo levantamento do Tribunal Superior Eleitoral, embora o presidente do TSE, Dias Toffoli, ter considerado que se deve levar em conta o envelhecimento da população e o fato de o tribunal considerar, na contagem deste ano, a idade do eleitor no dia da eleição.

Reportagem publicada neste Correio mostrou que apenas 35% dos brasilienses com 16 e 17 anos tiraram o título para votar nestas eleições. A política partidária parece uma máquina obsoleta e enferrujada, mas ainda não inventaram nada melhor do que a democracia, e o voto, para tentar escolher o melhor ou o menos pior, para comandar os destinos do país e das cidades. Maria Paciência dos Santos não vai votar neste 2014.




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