Talento com overdoses de rebeldia

Talento com overdoses de rebeldia

» LUANA BRASIL Especial para o Correio
postado em 21/08/2014 00:00
 (foto: Editora Thin Man Press/Divulgação)
(foto: Editora Thin Man Press/Divulgação)


A vida polêmica do poeta e frontman das bandas Libertines e Babyshambles não é fácil de desvendar. Pete Doherty, que já foi namorado de Kate Moss e Amy Winehouse, vive uma realidade conturbada, envolvendo drogas, temporadas em prisões e clínicas de reabilitação, brigas, fama e overdoses. Catalizadora de manchetes, a personalidade do artista causa estranhamento evidenciando o paradoxo do mainstream midiático em conjunto com uma alma sensível, reclusa e reflexiva.

Apesar de ser mais conhecido por sua música (e pelos escândalos divulgados nos tablóides ingleses), Doherty nutre um profundo gosto pela literatura e pela poesia, e vem registrando em cadernos, por anos a fio, a verdadeira natureza, os impactos do vício, bem como as restrições e exigências de uma sociedade em busca de espetáculo em tudo o que se move.

Com base nesses diários, a jornalista musical e escritora britânica Nina Antônia traz ao público o gênio errante de Doherty. No livro From Albion to Shangri La, ela edita os fluxos e refluxos de consciência que emergiram em Pete sob o efeito de heroína durante sete anos de turnês. Esse material transcrito e organizado traduz a beleza de um olhar impiedoso sobre o vazio da própria miséria. ;Pete é um personagem efêmero, mercurial. É possível ouvir a voz nessas páginas, nos redemoinhos de tinta e sangue, os meandros da madrugada e arrependimentos dos inícios das manhãs;, conta Nina em entrevista exclusiva ao Correio.

Sobre o gosto por personagens junkies e transgressores, ela explica: ;Prefiro escutar as vozes dissidentes e da linhagem de rebelião de Jean Genet, Willian Burroughs, Lenny Bruce, Oscar Wilde, Rimbaud, Marjorie Cameron, Rosaleen Norton, Kenneth Anger. Prefiro qualquer um que tenha desafiado a sociedade com a sua arte porque eu também estou em desacordo com ela;. Nina, que também escreve para as revistas Uncut e Mojo, já havia conquistado o público em 1987, com biografia do guitarrista do New York Dolls, Johnny Thunders; In Cold Blood. Não menos junkie e sensível que Doherty, Thunders foi uma das almas mais livres da Inglaterra dos anos 1970, despertando o interesse da jornalista e historiadora de Liverpool. In Cold Blood está sendo adaptado para o cinema nos estúdios de Hollywood.

From Albion to Sangri La oferece uma visão singela da realidade crua de um Orfeu pós-moderno, dá voz a um filho da boemia imaginária e romantizada dos tempos atuais. A obra foi recém-lançada na Inglaterra, mas ainda não possui edição brasileira.

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