Economia em marcha lenta já fecha empregos

Economia em marcha lenta já fecha empregos

Criação de vagas com carteira assinada em todo o país cai para 11,7 mil em julho, o volume mais baixo para o mês desde 1999. Segundo o ministro do Trabalho, é o %u201Cfundo do poço%u201D. Fraqueza da economia preocupa a equipe eleitoral de Dilma

» ANTONIO TEMÓTEO
postado em 22/08/2014 00:00
 (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)




A estagnação da economia brasileira está batendo forte no mercado de trabalho. Em julho, foram gerados apenas 11.796 postos com carteira assinada, o pior resultado para o período desde 1999 ; época em que o país foi forçado a mudar a política cambial no rastro de uma crise internacional iniciada na Rússia. Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados ontem, indicam que o ritmo de contratação perdeu força pelo terceiro mês consecutivo. O ministro do Trabalho e Emprego, Manoel Dias, admitiu que o nível de contrações ;chegou ao fundo do poço;.

A queda na criação de empregos já preocupa o Planalto e a equipe de campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff, uma vez que ela tem empunhado a bandeira de que a o ritmo fraco da atividade não afetou a abertura de postos de trabalho nem os ganhos salariais dos brasileiros. O quadro pode ganhar contornos mais sombrios na próxima semana, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgará o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre. A expectativa dos analistas é de que os números indiquem uma economia em retração.

Nos sete primeiro meses de 2014, a criação de vagas formais ; sem considerar os ajustes feitos nos meses anteriores ; chegou a 504 mil, uma queda de 27,7% na comparação com mesmo período do ano passado.

Entre os setores da economia, a indústria de transformação fechou postos pelo quarto mês consecutivo, e o comércio varejista, pelo terceiro. As fábricas de peças para veículos são as mais afetadas e desligaram mais de 17 mil trabalhadores desde abril. Nos serviços, o segmento de ensino também demitiu mais do que contratou em junho e julho.

Estagnação

Em nove estados, além do Distrito Federal, houve fechamento de vagas. São eles: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pernambuco, Santa Catarina, Espírito Santo, Sergipe, Bahia e Roraima. No DF, o saldo entre contratações e desligamentos foi negativo em 888 postos de trabalho. Mesmo com os dados desfavoráveis, o ministro do Trabalho, Manoel Dias, continua a defender que a desaceleração não chegará ao ponto de produzir mais demissões do que admissões.

Ele ressaltou que o Brasil gerou mais empregos do que a soma dos resultados da Austrália, do Canadá, do Chile, de Israel, do Japão e da Holanda. ;Em julho, com o fim da Copa do Mundo, quem havia sido contratado temporariamente foi desligado. Vamos trabalhar para aumentar a produtividade de quem está ocupado e combater a informalidade. Nossa meta é de que até 10% dos 19 milhões de informais tenham a carteira assinada;, completou.

Em meio à estagnação da economia, Maria Lúcia Portugal, 46 anos, está há três meses à procura de emprego. Após dedicar cinco anos a cuidar da mãe doente, ela se viu obrigada a buscar uma ocupação para aumentar o orçamento da família, de apenas R$ 1,6 mil. ;Tudo está caro, tenho três filhos e a situação não é boa. Era auxiliar de escritório, mas topo qualquer coisa agora.;

Pressões
Para a economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, o baixo crescimento da economia desde 2011 demorou a ter reflexo no mercado de trabalho, mas não deve dar trégua nos próximos meses. Ela estimou que, sem as sazonalidades que estimularam a contratação em julho, teria sido registrado saldo negativo de 3 mil postos. Solange ainda destacou que a estagnação da atividade no país e um possível aumento do desemprego devem aliviar as pressões inflacionárias decorrentes dos ganhos salariais dos últimos anos.

O economista da Tendências Consultoria Rafael Bacciotti previa uma geração 14 mil vagas no mês passado. Ele ressaltou que o resultado é ruim, sobretudo pelo fechamento de postos da indústria e do comércio, além da desaceleração na construção civil. ;O número é muito fraco. Em junho, os dados dessazonalizados indicam fechamento de 46,7 mil vagas. O resultado de julho não reverte essa trajetória;, completou.

Na opinião do professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB) Carlos Alberto Ramos, ainda é cedo para falar em aumento do desemprego. ;Mesmo que o crescimento seja baixo ou nulo, não vejo desdobramentos sociais preocupantes a curto prazo. Ainda temos uma taxa de desemprego baixa em comparação com Europa e Estados Unidos;, comentou.

Alheio aos movimentos do mercado, Rafael Santos, 20 anos, mudou de emprego oito vezes nos últimos dois anos. Ele ressaltou que sempre encontrou uma proposta melhor. Atualmente, é técnico de informática. A meta agora é passar no vestibular para educação física, formar-se e prestar concurso para a Polícia Civil. ;Não estou satisfeito. Trabalho desde os 16 anos, mas passei a ter a carteira assinada com 18. Sei que é importante para ter uma aposentadoria. Quero uma vida melhor e preciso estudar;, disse.


; Judiciário
pode parar


Os servidores do Judiciário ameaçam cruzar os braços durante as eleições se não receberem aumento salarial de 40%, referente à perda de poder aquisitivo desde 2006. Eles fizeram atos de protesto ontem em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Ministério do Planejamento para exigir que o Executivo não faça cortes no orçamento. Segundo Sheila Tinoco, diretora do sindicato da categoria (Sindijus-DF), o presidente do STF, ministro Ricardo Lewandowski, ;prometeu conversar com a presidente Dilma Rousseff e garantiu que, até meados de 2015, a primeira parcela do aumento estará nos contracheques;. O impacto orçamentário do reajuste para 120 mil funcionários é R$ 8 bilhões.

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