"Não vai nos calar"

"Não vai nos calar"

RENATA MARIZ
postado em 22/08/2014 00:00

Depois de saberem que Roger Abdelmassih teria dito na presença de policiais que as mulheres que comemoravam a sua prisão tinham de ser caladas, as vítimas do ex-médico se mostram ainda mais unidas. ;Ele não vai nos calar;, afirma Teresa Cordioli. O silêncio, para ela, durou décadas. Foi rompido quando as primeiras denúncias contra Abdelmassih se tornaram públicas, em janeiro de 2009.

Ao ver as notícias na televisão, a dor sofrida aos 17 anos, quando se internou devido a um problema renal em um hospital de Campinas (SP), voltou com força total. ;Comecei a gritar, comecei a chorar. Eu sabia que não era só eu. Veio a certeza de que eu não tive culpa, de que eu não tinha provocado aquilo. Como eu faria isso deitada num leito, com soro na veia? Por dias, ele me atendia, sempre sozinho, e me estuprava. Depois me ameaçava;, disse, com a voz embargada.

O medo fez com que Teresa se fechasse. ;Meus pais eram italianos chucros, podiam pensar até que a culpa era minha. Tinha seis irmãos homens. Não queria ser julgada na sociedade. Preferi me calar. Além disso, tinha medo dele. Você entende que ele tinha minha vida nas mãos dele? E outras mulheres tinham a vida do filho delas, o sonho da maternidade, nas mãos dele?;, explica.

Antes de revelar ter sido uma vítima do ex-médico, chegou a ligar para algumas emissoras de tevê quando assistia ao algoz dando entrevistas como o ;papa da reprodução assistida; no Brasil. ;Dizia que ele era um estuprador, mas ninguém acreditava em mim, claro;, lembra. Hoje com 63 anos, a escritora se sente vingada pelas 39 mulheres que conseguiram acusar, formalmente, o abusador, por 56 estupros, resultando em uma condenação de 278 anos de prisão.

Além de tornar a própria história pública, ela se juntou a outras vítimas desde que o caso veio à tona, para lutar pela responsabilização do ex-médico. O grupo reuniu cerca de 300 documentos com informações que ajudaram a levar as autoridades ao paradeiro do foragido, procurado pela Interpol. ;Foi um trabalho de formiguinha. Cada uma ajudava com o que podia. A gente recebia informação anônima também;, destaca.

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