Correio Econômico

Correio Econômico

Eu só quero dinheiro

por Vicente Nunes / vicentenunes.df@dabr.com.br
postado em 22/08/2014 00:00
O governo avalia como positiva a repercussão em torno do pacote para estimular o crédito, anunciado pelo Banco Central e pelo Ministério da Fazenda, mas os especialistas estão convencidos de que o impacto no consumo será mínimo. As famílias não estão hoje atrás de linhas de financiamento para comprar bens duráveis ; carros, móveis ou eletrodomésticos. Querem empréstimos para complementar a renda, pois o orçamento foi corroído por um longo período de inflação alta.

;Ainda que as medidas divulgadas pelo governo sejam, estruturalmente, positivas, elas só terão impacto no médio e longo prazos. Neste momento, são poucos os que estão pensando em se endividar para comprar alguma coisa. O que vemos é todo mundo correndo atrás do hot money;, diz o economista Nicola Tingas, da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimentos (Acrefi). ;Por hot money, entenda-se cheque especial e cartão de crédito;, emenda.

Para ele, o ciclo virtuoso do consumo e do crédito esgotou-se. ;As famílias estão com o caixa negativo, principalmente, aquelas de menor renda;, assinala. Esse quadro decorre do fraco desempenho da atividade. Como a economia já não está girando, muita gente viu os rendimentos diminuírem. ;Os prestadores de serviços, por exemplo, já não têm a demanda de meses atrás. Na loja que tinha 10 empregados, hoje são quatro. Isso afetou o orçamento dos lares. Por isso, tanta gente no vermelho;, ressalta.

A situação está tão ruim, destaca Tingas, que mesmo aqueles que têm dinheiro de sobra botaram o pé no freio. Muitos olham para a frente e só veem incerteza. Preferem adiar as compras a ficarem inadimplentes no futuro. Portanto, não serão pacotes às vésperas das eleições que vitaminarão a economia. Antes de voltarem a consumir por meio de dívidas, os brasileiros terão de arrumar as finanças, o que não será uma tarefa nada fácil. Tempos difíceis estão por vir.

Pendurados no especial
A dependência dos brasileiros por linhas usadas como complemento dos salários está evidente nos dados compilados pelo Banco Central. Entre janeiro e junho, enquanto o saldo dos financiamentos de veículos encolheu 3,2%, o uso do rotativo do cartão de crédito saltou 15,3%. Na mesma base de comparação, o total de crédito para móveis, geladeiras e tevês avançou 2,3% e as dívidas do cheque especial, 8,5%. No aperto, os consumidores não estão se importando em pagar juros médios de 10% ao mês e nem se, em pouco tempo, vão entrar na lista de maus pagadores por total incapacidade de fechar as contas.


Urgência
eleitoral


; A parte do pacote de crédito anunciado pelo Ministério da Fazenda dificilmente entrará em vigor neste ano. E, quando finalmente passar a valer, levará meses para melhorar o ambiente de negócios do país, o que reforça visão de que as medidas têm caráter eleitoreiro. Quatro dos seis itens alardeados por Guido Mantega serão instituídos por meio de medidas provisórias, que podem ser rejeitadas pelo Congresso ou, no mínimo, modificadas. ;Ninguém vai operar com o sistema anunciado pelo governo sem saber se ele continuará valendo depois;, afirma o advogado Rodrigo Bicalho, especialista em ireito imobiliário.

Tensão na
Esplanada


; Técnicos da equipe econômica admitem que o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, passou dos limites, ao adiar pagamentos de benefícios sociais e obrigar a Caixa Econômica Federal a arcar com as despesas, o que pode configurar crime. As artimanhas estão respigando por todos os lados. Já engolfaram o Banco Central e a Advocacia-Geral da União (AGU). A oposição está pronta para acusar o governo de infringir a Lei de Responsabilidade Fiscal e a Lei do Colarinho Branco. Os ânimos estão à flor da pele.

Crise tem nome
e sobrenome


; Sempre é bom ressaltar: tudo que o secretário do Tesouro fez teve a chancela do chefe direto, Guido Mantega, e da presidente Dilma Rousseff. A ordem, no entanto, é desvincular o máximo as ações de Arno Augustin, que mantém um silêncio ensurdecedor, dos superiores. Há muita gente séria dentro do governo disposta a mostrar o quanto as manobras fiscais estão custando caro ao país. ;Depois, ficam jogando a culpa nos pessimistas. Hoje, o risco Brasil tem nome e sobrenome: Arno Augustin;, afirma um técnico.

México cresce e
provoca inveja


; Concorrente direto do Brasil na atração por investimentos estrangeiros, o México virou motivo de inveja no governo. A segunda economia latina cresceu 1% no segundo trimestre do ano, taxa que, anualizada, mostra expansão de 4,2%. Aqui, na semana que vem, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) deve mostrar retração do Produto Interno Bruto (PIB) entre abril e junho. O risco de o país estar em recessão é enorme.

Nem as famílias
salvam


; Para Fábio Silveira, economista da GO Associados, o governo deve se preparar para o pior. Além de queda do PIB no segundo trimestre, a economia deverá registrar retração entre julho e setembro, ratificando o processo de recessão. Para ele, nem o consumo das famílias, ue já foi o suporte da atividade, vai ajudar.

Santander
na Fazenda


; O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, reúne-se hoje com representantes do Santander. O banco esteve, recentemente, no centro de uma crise política por causa de um relatório enviado a clientes alertando que, com Dilma reeleita, a economia brasileira vai degringolar.

Aposta
na vitória


; As ações da Natura, de Guilherme Leal, que foi vice de Marina Silva nas eleições de 2010, lideraram a alta da
Bolsa de São Paulo ontem. Subiram 3,84%.

Com Paulo Silva Pinto






Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação