Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

Conceição Freitas >> conceicaofreitas.df@dabr.com.br
postado em 22/08/2014 00:00
A cronista sumiu

Caros leitores, venho por meio deste alto de página lhes informar que a cronista desapareceu. Faz horas que se procura por ela e nada. Todas as providências foram tomadas: e-mail, Whatsapp, mensagens nas redes, telefonemas, gritos, invocou-se São Longuinho, e nenhum sinal do paradeiro da cronista.

Sabe-se que ela é de veneta. Passa dias fazendo de conta que está presente. Faz pose de gente importante, assume um ar compenetrado de quem tem algo imprescindível a escrever, de quem observou um aspecto até então inédito de determinado acontecimento de alcance público, mas é tudo disfarce.

A cronista sumiu!

Mas o jornal tem de sair todo dia e o espaço destinado aos 4 mil caracteres espera pela crônica.

Substituta compulsória da referida cronista, decidi revelar o desaparecimento aos leitores. Há dias vinha percebendo uma ausência em corpo presente. Os vizinhos de bancada também notaram um comportamento fora do padrão. Ela vinha respondendo às intervenções com o automatismo das vozes metálicas do telemarketing.

Há boatos de que ela se perdeu no universo virtual.

Cansada de resistir à tecnologia, mergulhou no teclado e foi sugada para o mundo paralelo da internet. Soube-se que ela quis conhecer, cara a cara, os autores dos comentários raivosos publicados em sites de notícias. Queria ver quantos olhos, narizes e orelhas têm esses anônimos odientos.

A cronista sabe que todos nós temos nossos monstrinhos. Muitos de nós fazemos o possível para mantê-los encarcerados, sem luz, sem água, sem oxigênio. Mas a internet abriu a porteira da civilidade e o pior da espécie humana está mostrando sua ignomínia na rede.

Sente saudades, a cronista. Dos tempos em que os seres abjetos se escondiam por detrás das regras elementares de civilidade. Era mais fácil acreditar que a humanidade é um projeto viável.

A porteira aberta da internet deixou os humanos nus em pêlo. Somos assim ; intolerantes, invejosos, desonestos, covardes, malignos, inconsequentes.

No dia anterior ao sumiço da cronista, ela procurava a notícia do atropelamento de uma trabalhadora rural, no sudeste do Pará, e caiu num site de notícias do Norte do país. A foto que surgiu diante da cronista foi a pior imagem que ela já viu em toda a sua vida ; o corpo da mulher no asfalto, depois de ter sido atingida pelas rodas de um caminhão.

A internet está devorando a sanidade e a delicadeza. A rede é mais real que a mais cruel das realidades. Vista pelo ângulo da rede de computadores, a civilização é um horror ; aquele horror gutural que sai da garganta de Marlon Brando em Apocalipse Now.

Estamos em guerra, os civilizados contra os insanos.

Por isso, a cronista desapareceu. Talvez esteja andarilhando por Brasília, procurando o céu, o cerrado, a arquitetura, a utopia, os devaneios, os sóis e as luas. Talvez ela quisesse morrer, não fossem os vivos que a mantêm viva, por amor a eles, aos que ela conhece e aos que ela não conhece, mas que são parte desse projeto impossível de humanidade.




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