Um guerreiro de Brasília

Um guerreiro de Brasília

Aeroviário perde ônibus na Rodoviária e encontra recém-nascido no banco da praça que fica entre o Conjunto Nacional e o Teatro Nacional. Polícia tenta localizar a mãe da criança, internada em um hospital da Asa Sul

» MARIANA LABOISSIÈRE » LUIZ CALCAGNO
postado em 03/09/2014 00:00
 (foto: WhatsApp/Reprodução)
(foto: WhatsApp/Reprodução)

Orecém-nascido encontrado na noite da última segunda-feira no banco da praça localizada entre o Conjunto Nacional e o Teatro Nacional recebeu o nome de Arthur. Ele foi batizado pela equipe do Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib), na Asa Sul, onde está internado e passou por uma série de exames. Segundo a pediatria, o estado de saúde da criança é bom. Tem cerca de 37 semanas, pesa 2,1kg e mede 45cm. Em menos de um mês, esse é o segundo caso de abandono de incapaz registrado no DF (leia Memória). De janeiro a junho, foram 50 ocorrências, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública. No mesmo período de 2013, houve 71.


O bebê foi encontrado pelo aeroviário Edson de Sousa Santos, 40 anos. Ele passava pelo local por volta das 23h, quando avistou algo que imaginava ser uma sacola plástica. ;Vi que alguma coisa se mexia, então, aproximei-me e levei um susto quando me dei conta de que eram os pezinhos de uma criança. Naquela hora, fiquei arrepiado, tive vontade de chorar. Agradeci a Deus por ter me colocado ali, e o peguei nos braços;, contou. Edson tinha perdido um ônibus para o Aeroporto Juscelino Kubitschek e resolveu caminhar pela praça. Segundo ele, Arthur usava manta, roupas de frio, luvas e um gorro, que havia saído da cabeça.


O aeroviário afirma que ventava forte e, sem saber o que fazer, acionou a Polícia Militar pelo 190. ;Nem esperei chegarem. Fui até o posto da PM na Rodoviária (do Plano Piloto) e, acompanhado dos policiais, levamos o bebê ao Corpo de Bombeiros;, detalhou. O subtenente Roberlândio Alves do Nascimento estava de plantão e foi um dos cinco militares a receber a criança. Em 20 anos de profissão, diz nunca ter atuado em um caso parecido. ;Já fiz partos em viaturas e atendi ocorrências das mais variadas. Mas, receber um bebê abandonado, foi a primeira vez.;


Os bombeiros verificaram os sinais vitais da criança e não constaram indícios de maus-tratos. ;Ele estava limpo e usava fraldas descartáveis. Aparentemente, tinha uns sete dias ou menos, pois o cordão umbilical não havia secado;, destacou Roberlândio. O subtenente mencionou ainda que a criança estava tranquila e não chorou em nenhum momento. Depois disso, uma ambulância encaminhou o recém-nascido ao Hmib.


A Secretaria de Saúde do DF informou, por meio de nota, que o caso é acompanhado pelo serviço social da unidade. O bebê deu entrada no Hmib à 0h21 de ontem com um leve quadro de desidratação. Encontra-se agora em um leito da Policlínica e tem um profissional só por conta dele. É alimentado com leite específico para recém-nascidos.
A ocorrência foi registrada na 5; Delegacia de Polícia (Área Central). Na tarde de ontem, Edson prestou depoimento por cerca de uma hora, quando também foram analisadas imagens de câmeras nas proximidades. O Conjunto Nacional explicou, por meio da assessoria de Comunicação, que os equipamentos de segurança do shopping gravam áreas comuns. Caso alguma imagem do momento do abandono tenha sido captada, será encaminhada à polícia.

Crime
Antes de julgar o que levou ao abandono do bebê, o professor do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UnB), Áderson Costa, acredita ser necessário analisar o nível de sofrimento enfrentado pelo responsável. ;Certamente, a mãe deve ter enfrentado uma situação de ansiedade grande. E esse processo vem desde a gestação e não sabemos quais as circunstâncias. Não sabemos quem é o pai da criança, se a gestação foi proposital, acidental ou criminosa;, pontuou. Segundo ele, antes de criminalizar, é preciso entender o contexto. ;Houve uma preocupação mínima com a criança, pois estava bem agasalhada. Essa pessoa precisa de atenção, de ser assistida por um profissional.;


Mesmo assim, o responsável por deixar a criança na praça do Conjunto Nacional pode responder por crime de abandono de incapaz, cuja pena varia de 6 meses a 3 anos de prisão. ;Como a criança foi deixada na rua, considero um agravante. A pessoa poderia ter deixado numa escola ou num hospital. Há programas no DF de acolhimento;, argumentou a advogada e professora de direito civil Suzana Viegas.

Avô aos 40
Edson de Souza Santos, 40 anos, é aeroportuário e cumpre vários serviços no Aeroporto Internacional de Brasília Juscelino Kubitschek, desde despachar malas até auxiliar em equipamentos para decolagem dos aviões. Ele mora no Gama e cria o filho da mulher dele desde os 6 anos. Considera-se pai da criança. O neto recém-nascido também vive com a família. O aeroviário afirma ter se sentido um herói. ;Deus me colocou naquele lugar, Deus me fez perder aquele ônibus. Eu nunca tinha passado por esse lugar nem pensei bem quando tomei a decisão.;

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