Empréstimo sagrado

Empréstimo sagrado

rodrigo craveiro rodrigocraveiro.df@dabr.com.br
postado em 03/09/2014 00:00


;Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. (...) Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo.; A definição do escritor português José Saramago é perfeita. Amor pressupõe coragem, doação e temores, mas, também, conquistas diárias. Recordo-me do primeiro choro do meu filho, quando o conheci na sala de parto. Do primeiro sorriso. Do primeiro aniversário dele, quando, ao fim do dia, fui eu quem ganhou um presente, ao vê-lo dar os primeiros passos, em meio a gargalhadas. De repente, me vi à beira das lágrimas, tomado de felicidade e de orgulho.

O que dirá, então, do primeiro trabalho escolar? Da primeira festa junina. Da empolgação em chutar a primeira bola. Da vez em que ele olha lá no fundo dos meus olhos e afirma: ;Papai, você é o amor da minha vida;. Ou de quando se sai com esta: ;Papai, escreve uma matéria bem bonita pra mim, tá?;. É como se Deus tivesse me emprestado um diamante, sob a incumbência de lapidá-lo para torná-lo transparente e brilhante, refletindo puro amor. Percebi que ser pai, além de um ato corajoso, também é missão das mais sublimes e lindas. Aprendo todos os dias algo novo com meu filho e tento transmitir-lhe muito do que recebi de meu pai. Espero poder honrar o empréstimo ao qual Saramago se refere e passar a ele a importância de ser bom pai.

Não consigo entender como pais se omitem em dar amor, segurança e carinho aos filhos. É inexplicável como alguns transformam uma relação tão sagrada em tormento para a criança. Deixam à mostra seus piores defeitos para oferecer os piores exemplos. Isso quando não se esquivam de suas responsabilidades. Transformam o futuro dos pequenos em ódio, incerteza e carência. Perdem oportunidade valiosa de exercer um dos papéis mais importantes e especiais. Muitas vezes, lá no fim da jornada, próximo ao último suspiro, buscam o calor e o afago de quem negaram o mesmo. E percebem que perderam a essência da vida. Mas, então, já é tarde demais.


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