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JAIRO BROD Doutorando em ciência política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro
postado em 03/09/2014 00:00


Circula pelas redes sociais imagem que já se tornou um meme, isto é, está repercutindo de formal viral. Trata-se de uma mulher que tem a cabeça coberta por um chador. Embaixo da foto, a legenda: ;Marina Silva tem os olhos límpidos e puros do E.T.;.

Sim, aquele mesmo, o simpaticíssimo personagem do filme homônimo, de Steven Spielberg. Pelo que se depreende, a intenção do autor da postagem não tinha conotação política. Queria apenas fazer uma inocente brincadeira. Muitas, aliás, já foram feitas, sempre tendo como mote o discutível gosto da ex-ministra por vestes um tanto exóticas, orientalizadas. Pensam assim os estilistas, a maioria das mulheres e os adversários políticos dela. Ela própria e os seguidores, contudo, veem no despojamento a materialização da humildade que a caracterizaria.

Brincadeiras à parte ; que alguns viram como de mau-gosto ;, a caracterização da candidata do PSB à Presidência da República atirou no que viu e acertou no que não viu. Marina Silva é mulher de muitas vestes e de outras tantas ;vestes;.

;Vestes; está entre aspas porque tem conotação metafórica, expressando as significativas mutações político-ideológicas pelas quais tem passado a candidata desde que deixou o PT, em 2009. De lá para cá ; menos de cinco anos, portanto ; fez parte de quatro partidos políticos: o próprio PT, o PV, o Rede (ainda em fase de regularização) e agora o PSB.

É muito para quem se diz militante de esquerda e religiosa por convicção e age como moralista de plantão. A candidata se movimenta no mundo político como entidade apartada desse mesmo mundo. O seu projeto de poder é bastante claro: governar sozinha, à margem dos partidos políticos. A orientá-la, a temerária missão de que se julgam imbuídos os demiurgos, criaturas intermediárias entre a natureza divina e a humana.

Não se está aqui condenando quem efetua mudanças na vida. Não, não é isso, até porque ;triste não é mudar de ideia; triste é não ter ideias para mudar;, como afirmava o Barão de Itararé. Mas mudar significa melhorar, trocar o que é ruim pelo que, teoricamente, nos engrandece como ser humano. Tudo indica que não é esse o propósito da candidata do PSB. Suas escolhas traem interesses pouco elevados. Não visam ao fortalecimento de qualidades morais, mas à captação de capital político-eleitoral.

Como disse, toda pessoa tem o direito de modificar aspectos da vida. É elogiável que se mude de convicções religiosas ou filosóficas, prova de amadurecimento conquistado pela experiência, pela leitura ou por reflexões aprofundadas. Marina, que nasceu católica, atualmente professa a religião evangélica, provavelmente em função disso. Custa crer, entretanto, que a guinada em suas crenças políticas e ideológicas tenha passado por fermentações equivalentes àquelas. Nesse último caso, Marina Silva ;vestiu-se; e ;desvestiu-se; de suas convicções num prazo miraculosamente curto. Haja retiro espiritual e meditação transcendental para tal!

A estranheza desse comportamento é maior pelo fato de a candidata condenar explicitamente esse tipo de ação. Em mais de uma oportunidade, Marina condenou os ;políticos que trocam de partido como quem troca de roupa;. A declaração soa irônica, sobretudo porque a política acriana vem incorporando ao seu estilo exatamente o que antes considerava como pecaminoso. Marina recriminava, igualmente, os que ;agem de má-fé, com intenções que não podem ser reproduzidas à luz do dia;.

Para confirmar que sua mão esquerda diz uma coisa e sua mão direita faz outra, a ex-ministra é hoje tida, à direita e à esquerda, como uma incógnita. O presidente do PSL, por exemplo, retirou o apoio à sua candidatura em razão de ;conhecer mais o pensamento de Dilma e de Aécio do que o de Marina;. Ou seja, a candidata peessedebista é a reencarnação da esfinge grega: ;Decifra-me, ou eu te devoro;.

E dá-lhe declarações enviesadas e troca de vestes e de partidos. Assim agindo e falando, Marina Silva incorpora, em um corpo já frágil, outra figura mitológica: a sacerdotisa de Vesta, a deusa romana do fogo. Tida por mulher casta, virgem e honesta, a intercessora da divindade vez por outra caía em tentações pouco divinais. Por isso, o adjetivo dela decorrente ; vestal ; passar a significar pessoa que se dá por muito honesta, muito pura. Os procedimentos marinais estão mais para marinescos ou principescos, atestando que ela se cobriu de uns anos para cá das vestes e das vestes daquela sacerdotisa.


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