Putin acena com nova estratégia

Putin acena com nova estratégia

Em meio à escalada da crise na Ucrânia, e diante dos planos do Otan para reforçar a presença na região, Kremlin estuda revisão da política de defesa

LUCAS FADUL
postado em 03/09/2014 00:00
 (foto: Maxim Shemetov/Reuetrs)
(foto: Maxim Shemetov/Reuetrs)



Em resposta ao plano da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de aumentar a presença militar no leste da Europa, o secretário adjunto do Conselho de Segurança Nacional da Rússia, Mikhail Popov, anunciou que o Kremlin programa uma revisão de sua estratégia de defesa ; com foco na presença da aliança ocidental às portas do território russo. A crescente tensão com Moscou, acirrada pela crise na Ucrânia, dominará a reunião de cúpula que a Otan promove a partir de amanhã em Gales , no Reino Unido.

Em meio ao conflito mais perigoso no continente desde a Guerra Fria, dirigentes europeus analisavam ontem uma declaração que o presidente russo, Vladimir Putin, teria feito em telefonema ao presidente da Comissão Europeia (CE), José Manuel Durão Barroso. Segundo o jornal italiano La Repubblica, Putin teria afirmado que as forças de Moscou, ;se quisessem;, poderiam tomar a capital ucraniana, Kiev, ;em duas semanas;.

De acordo com o jornal americano The New York Times, os 28 países-membros da Otan devem aprovar a criação de uma força de pronta resposta a ser disposta na Europa Oriental. Com 4 mil combatentes, recrutados entre os sócios em sistema de rodízio, a unidade será capacitada para reagir em 48 horas a qualquer movimentação militar russa.
Na avaliação do alto funcionário russo, os dirigentes da Otan ;avaliam o papel da Rússia de forma não objetiva, tiram conclusões incorretas e adotam medidas inadequadas;. Popov acusar novamente os governos ocidentais de tentar ;agravar as tensões; no leste ucraniano, palco desde abril de um conflito entre as tropas do governo e separatistas pró-russos.

As forças de Kiev seguiam ontem perdendo terreno para os rebeldes, e sofreram ao menos 15 baixas desde o início da semana. Desde o início do levante separatista, o total de mortes supera 2.600, entre combatentes e civis. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), mais de 1 milhão de ucranianos tiveram de deixar suas casas ; 260 mil deslocados no próprio país e 816 mil na Rússia. O Acnur admite que o número real pode ser maior, porque muitos se abrigaram com amigos e familiares.

Dissuasão nuclear
Na avaliação do cientista político Heni Ozi Cukier, do Departamento de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), a revisão estratégica do Kremlin deve recolocar em destaque a dissuasão nuclear. ;Na minha opinião, seria o grande redirecionamento da doutrina militar, no momento;, afirmou ao Correio. ;A indecisão marcante da política externa do presidente norte-americano, Barack Obama, aumenta a insegurança no mundo e aponta para movimentos cada vez mais audaciosos de Putin;, conclui o especialista. A caminho da cúpula em Gales, Obama faz hoje escala na Estônia, uma das ex-repúblicas soviéticas hoje integradas à Otan.

Para Cukier, o Kremlin se prepara com vistas ao ;pior cenário possível;. ;Isso prova que Putin é um estrategista mais capacitado que os governantes ocidentais;, opina o cientista político. ;O fornecimento de gás russo para a Europa não será suspenso tão rapidamente. É preciso realizar uma transição. As sanções econômicas contra Moscou têm contribuído para que a Rússia se volte para novos mercados;, explicou, lembrando o início da construção de um gasoduto ligando o país à China, nos marcos de um acordo de fornecimento com prazo de 30 anos.

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