Roubos e desaparecimentos

Roubos e desaparecimentos

Longas que fazem parte da Mostra Competitiva do Biff exploram a trilha do suspense para refletir e divertir

Juliana Figueiredo Nahima Maciel
postado em 03/09/2014 00:00
 (foto: M-appeal/Divulgação)
(foto: M-appeal/Divulgação)


Uma das pequenas grandes surpresas do Brasília International Film Festival (Biff) é a história de como surgiu o primeiro longa de Elina Psykou, O eterno retorno de Antonis Paraskevas, que estreia hoje, às 20h30, no Cine Brasília. A diretora grega conta que a inspiração para fazer o filme veio de uma notícia na imprensa grega sobre Wallace Souza, o político e apresentador de televisão brasileiro acusado de comandar o crime organizado no Amazonas e assassinar traficantes para exibir os casos em seu programa.

;Eu fiquei impressionada com o quão longe um jornalista pode ir para conseguir altos níveis de audiência, satisfazer a sua vaidade e eternizar a sua imagem pública. Imediatamente, eu pensei nos jornalistas gregos e no que eles fazem para conquistar espectadores. Eles cometem coisas realmente nojentas. Então, eu criei o personagem de Antonis Paraskevas: um jornalista grego que forja o seu próprio desaparecimento para voltar a ter destaque na mídia;, conta Elina.

Perda da identidade
O filme é uma sátira ao mundo das celebridades e ao cinismo midiático, mas, acima de tudo, é um retrato da Grécia atual, um país em crise mental e financeira que vive do passado. Antonis Paraskevas é uma pessoa e um país. ;Eu queria contar uma história sobre a falta de identidade e a confusão que isso traz. Ao mesmo tempo, uma história sobre o medo do fim e o esforço para se tornar imortal, como se fosse a única maneira de impedir esse fim. Sobre um homem e um país que perderam as suas identidades. Eles não se lembram quem são e não sabem quem querem ser, então eles permitem que os outros os definam;, explica.

No filme, Antonis passa os dias perambulando em um resort abandonado no qual se instalou, mas a sua ansiedade vai crescendo à medida que o momento perfeito para o seu retorno nunca parece chegar. ;Antonis quer voltar, mas ele está com medo de que esta volta seja apenas uma repetição do que ele já viveu. Então ele prefere outro retorno. Um que vai torná-lo imortal. É sobre isso que o filme trata: a imortalidade. Antonis pode nunca voltar ; pelo menos não fisicamente ;, mas a sua memória vai voltar permanentemente, por toda a eternidade;, diz.



"Eu queria contar uma história sobre a falta de identidade e a confusão que isso traz. Ao mesmo tempo, uma história sobre o medo do fim e do esforço para se tornar imortal, como se fosse a única maneira de impedir esse fim;
Elina Psykou, diretora de O eterno retorno de Antonis Paraskevas



Três perguntas / Elina Psykou

Por que ;o eterno retorno;?
O título é inspirado no conceito que Nietzsche explica em seu livro A gaia ciência. De certa forma, simboliza o vão esforço da vida, a futilidade da existência que se repete de novo e de novo.

Nós podemos interpretar o título do filme como ;o eterno retorno da crise grega;? É um sentimento de que essa crise irá se perpetuar?
Se falamos de história contemporânea, sinto como se tivéssemos vivido em uma grande bolha e agora nós vivemos o estouro dessa bolha. Se os gregos não entendem isso, eu tenho medo que nós viveremos essa crise de novo e de novo.

Como é ser uma cineasta na Grécia, um lugar cheio de mitos e lendas?
É muito difícil ser cineasta em um país onde quase ninguém está interessado em civilização e nas artes contemporâneas. É como se os gregos estivessem cheios de todos esses mitos e lendas e não tivessem a necessidade de uma narração dos dias de hoje. E toda essa história, em vez de ser uma fonte de inspiração, é apenas um obstáculo simbólico para a recepção de toda a criatividade moderna. Tanto o Estado quanto o público são muito hesitantes em relação a cineastas e artistas em geral. Mas a principal causa de toda essa confusão é a falta de educação, uma falta que o Estado insiste em reproduzir.




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