Com licença, professor

Com licença, professor

postado em 03/09/2014 00:00
 (foto: Alfredo Duraes/EM/D.A Press)
(foto: Alfredo Duraes/EM/D.A Press)

Bené Coleira é um apelido interessante, mas o titular da alcunha, Benedito Batista da Silva, muda ligeiro de assunto e não explica a origem, dizendo se tratar de ;uma brincadeira de infância, daquelas que ficam;. Com 68 anos, esse caboclo astuto vive na zona rural da cidade de Bragança, no Pará, a 240km da capital Belém. Além de Coleira, é chamado de Mestre da Farinha, mestrado que se estende a outros produtos correlatos: tucupi, maniva cozida e goma.

É lavrador desde criança, condição à qual atribui o sucesso. ;Nunca fui empregado. Lutar na enxada por conta própria me tornou o que sou;, diz, mostrando outra das habilidades manuais: a confecção de cestaria indígena, usada para transportar e também como ferramenta para fazer farinha artesanal. O local de trabalho, a casa de farinha, ao lado da residência na roça, pode ser visitado: fica na comunidade do Peri, a 22km de Bragança, sendo 10km por estrada de terra.

Seu Benê, definitivamente, gosta de receber visitas. Quem for, deve encontrar um homem falante e determinado, que logo manda passar um café. A casa de farinha é supercaprichada, com paredes e telas, diferente das centenas, milhares de outras da região, normalmente mais modestas, abrigadas somente por telhado de palha de buriti.

Pois bem, com um currículo assim Bené chegou na Itália. E alçou outros voos menores, mas importantes: Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Campinas etc. Na bagagem, sempre, o seu saber sobre o mundo da agricultura familiar na Amazônia, a farinha, a mandioca. Seu Bené vai pra Itália é o nome do filme rodado em 2006, ano que Benedito foi convidado para participar do evento gastronômico Terra Madre, realizado em Turim pelo movimento gastronômico Slow Food.

500 quilos
Na fita, se desenrola a viagem à Itália, o choque cultural, as descobertas, os laços de amizade, o encontro com lavradores de várias partes e o retorno ao Pará. O filme foi um projeto do Instituto Maniva/Slow Food Rio de Janeiro, em parceria com a Made For TV. E, vejam só, não foi a primeira vez que Bené esteve num set de filmagens.

Em 2005, protagonizou ; com Fermínio Nascimento, produtor catarinense ; o documentário Professor da farinha, no qual é apontado como referência na produção desse produto no Pará. Foi esse documentário que abriu as portas de muitos lugares para ele, inclusive Turim. Essas experiências parecem justificar a imensa paciência que Bené tem para com fotógrafos e cinegrafistas, quando filmado sob a luz dura e fascinante da Amazônia.

Com uma propriedade onde planta mandioca e mantém alguns animais, Benedito produz cerca de 500 quilos de farinha da boa por quinzena para clientes antigos: comerciantes e donos de restaurantes conceituados de Belém, sendo que alguns desses últimos elogiam abertamente a qualidade.

Tânia Martins, sócia do restaurante Lá em Casa, um dos mais tradicionais da capital, é certeira: ;Ele tem domínio e gosta do que faz. É um mestre que tem até a humildade de reconhecer quando o produto não fica bom;.

;Produzo uma quinzena sim, outra não, que é quando um vizinho faz;, explica o caboclo. Para os leigos, principalmente os de fora do eixo norte e nordeste, a farinha, bem como os outros subprodutos da mandioca, podem parecer todos iguais. Definitivamente, não são. Há vários e, entre eles, aquilo que o mercado chama de produto bom ou ruim. A farinha-d;água, de tapioca, do uarini e suruí são algumas das variedades. Como é consumida em larga escala, há também quem a produza, mesmo na zona rural, de forma industrial, método bem diferente das tradicionais casas, onde o modo artesanal prevalece, uma herança indígena ancestral. (AD)




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