E a inflação foi parar no semáforo...

E a inflação foi parar no semáforo...

Ambulantes criam estratégias para minimizar a alta de preços dos produtos e manter as vendas minimamente aquecidas. Com economia fraca, vendedores que ainda dependem da informalidade sofrem para ganhar o sustento nos semáforos

» RODOLFO COSTA
postado em 08/09/2014 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)





Mesmo nas ruas, longe dos centros comerciais, os brasileiros não escapam da alta do custo de vida. Os produtos vendidos por ambulantes nos semáforos das grandes cidades estão cada vez mais caros. No último ano, a variação do preço de produtos como carregadores para celulares, água de coco, panos de chão e doces ultrapassou os 15%, mais que o dobro da inflação oficial medida no mesmo período, de 6,51%, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Os repasses aos consumidores, dizem os ambulantes, deveriam ser ainda maiores. A diferença de preço só não fica mais evidente porque os vendedores adotam estratégias para manter as vendas. Há dois anos, por exemplo, Rogério da Silva, 33 anos, anunciava sete panos de chão por R$ 10. Ele manteve o valor cheio, mas, hoje, o cliente leva apenas cinco panos. ;Comprava na fábrica, em Anápolis, a R$ 0,70 a unidade. Agora, para mim, sai a quase R$ 1;, justifica, revelando uma margem de lucro de cerca de 100%.

O pacote com 100 sacos de lixo, também ofertado por Silva nos semáforos de Brasília, custava no atacado R$ 17, lembra ele. A mesma quantidade custa hoje, dois anos depois, quase R$ 23, uma alta expressiva de 35% que obrigou o ambulante a refazer contas. ;Para não assustar o freguês com um aumento de preço tão grande da noite para o dia, tive que reduzir de 40 para 35 o número de sacos na embalagem, mas acabei mantendo o preço de R$ 10;, conta.

Silva não sente o peso da inflação somente no trabalho. Criado em Ceilândia, ele decidiu se mudar no início deste ano para o Plano Piloto, onde passou a dividir o aluguel de uma quitinete com a mulher. Trocou os R$ 300 que gastava com transporte pelos R$ 400 da locação do imóvel mais bem localizado. ;Estou conseguindo tirar essa diferença tendo mais tempo para vender. Começo a trabalhar no início da manhã e sigo até o fim da tarde;, relata.

A mudança deveria ter sido positiva, mas a conjuntura do país atrapalhou os planos e as contas do vendedor. Endividado e com o poder de compra corroído pela inflação, Silva está mais receoso na vida particular e, principalmente, nos negócios. ;O movimento caiu bastante. Antes, eu conseguia vender para cerca de 40% dos dois mil carros que paravam por dia no semáforo. Há uns três meses, não mais do que 10% dos motoristas levam meus produtos;, compara.

Aperto

Debaixo de sol ou de chuva, o ambulante Leilton de Araújo Amorim, 28 anos, é outro que batalha para vender de gelo e alimentos a equipamentos eletrônicos. É das ruas da capital federal que ele tira o sustento, dificultado pela escalada dos preços. A inflação encarece os produtos de Amorim e, na outra ponta, afasta os clientes. Em Brasília há uma década, ele não se lembra de ter vivido uma fase tão ruim de vendas. ;Nunca passei por um aperto como o que enfrento atualmente;, reforça.

Quem para o carro no semáforo onde Amorim trabalha se espanta quando ouve dele o preço de um saco de pipoca doce: R$ 2. ;Muitos até querem, mas desistem de comprar na hora em que digo quanto custa. A maioria reclama e me pergunta o porquê do preço. Digo que foi Dilma quem aumentou, a culpa é dela;, comenta o vendedor. Desde janeiro de 2011, quando a presidente assumiu o cargo, a inflação acumulada, medida pelo IPCA, ultrapassa os 24%.

A demanda arrefecida em decorrência do baixo crescimento da economia brasileira preocupa o vendedor, que tem enfrentado dificuldades para honrar os compromissos. A linha telefônica dele, por exemplo, está bloqueada porque a conta venceu. ;Até o ano passado, conseguia tirar entre R$ 1,2 mil e R$ 1,5 mil, e não tinha restrições no meu nome. No último mês, consegui R$ 700 e estou cheio de dívidas com empresas de varejo e com a televisão por assinatura;, lamenta.

Aumentos

Na opinião de Amorim, a inflação é perversa porque impacta na vida financeira e pessoal dos consumidores. ;Muitos ainda têm em mente que uma bala, um saco de pipoca ou de amendoim custa R$ 1. Mas os preços estão todos mais elevados. Não há como segurar o repasse;, desabafa. Sem perspectivas de crescimento na capital que um dia o acolheu, Amorim pensa em voltar para São Luís. ;Do jeito que as coisas estão caminhando, fica insustentável continuar aqui;, avalia.

A explicação para o aumento dos preços dos produtos vendidos pelos ambulantes, sublinha o economista e professor da Universidade de Brasília (UnB) Roberto Piscitelli, está ligada à alta do custo dos serviços. ;Na realidade, o que muitos ambulantes fazem é uma intermediação entre fabricante, fornecedor e consumidor final. Se essa cadeia sofre algum impacto nos valores, o repasse ao produto se torna bem provável;, detalha.

O educador financeiro Paulo Sain concorda que se render aos ambulantes soa mais prático, mas pondera que, no cenário atual, a pesquisa de preços se torna ainda mais importante. ;Pode ser mais confortável comprar em semáforos na rua, mas é preciso saber quanto o produto está, de fato, mais barato;, alerta, lembrando ainda os riscos de incentivar a informalidade. ;O cliente não tem garantia, nota fiscal, nada;, ressalta.

Piscitelli observa que muitos desses trabalhadores continuam em situação informal pela baixa qualificação, mas chama a atenção para o aumento na oferta de empregos, ainda que em ritmo menor nos últimos meses. ;O mercado de trabalho tem conseguido absorver muitos dos que viveram por anos na informalidade;, pontua.


Restituição do IR
A Receita Federal abre hoje a consulta ao quarto lote de restituições do Imposto de Renda da Pessoa Física. A partir da próxima segunda-feira, 15, será depositado na conta de 2 milhões de contribuintes um total R$ 2,2 bilhões, o maior valor pago no ano, bem superior ao disponibilizado em agosto de 2013, quando foram liberados R$ 1,4 bilhão a 1,3 milhão de contribuintes. Também serão depositados R$ 2 milhões para pagamentos de lotes residuais de 2009 a 2013. A consulta ao lote pode ser feita na página da Receita (www.receita.fazenda.gov.br), pelo Receitafone 146 ou nos aplicativos para tablets e smartphones. A restituição ficará disponível no banco durante um ano.

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