Problema ignorado

Problema ignorado

postado em 08/09/2014 00:00

Alheios ao debate sobre o aumento nos rombos dos regimes de previdência de trabalhadores do setor privado, de servidores públicos e de militares, parte dos jovens brasileiros se interessa apenas em conseguir um lugar no mercado de trabalho, mas não se preocupa em poupar para garantir uma velhice tranquila. Especialistas avaliam que parte dessa cultura está relacionada à falta de educação financeira e ao que consideram excesso de protecionismo nos benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Filho de servidores, o advogado Albert Salvador, 23 anos, decidiu após ser aprovado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que estudaria para concursos públicos. Ele nunca teve uma experiência profissional na iniciatava privada nem sequer contribuiu para o INSS. Conforme Salvador, a família o influenciou a buscar uma vaga na administração pública para ter estabilidade no emprego e uma renda garantida. ;Ainda não penso em previdência, mas sempre poupei o meu dinheiro. Decidirei sobre isso depois que estiver aprovado;, comenta.

Ex-analista de uma corretora de seguros, Gustavo Simões, 31 anos, pediu demissão do emprego para se dedicar aos estudos e concorrer a uma vaga no serviço público. O baixo salário e a falta de estabilidade no setor privado o estimularam a buscar uma nova colocação no mercado. Ele, que trabalhava com carteira assinada e contribuía para o INSS, diz que não ainda não se preocupa com o tema previdência. ;Tenho uma poupança que acumulei quando estava empregado e não uso esse dinheiro. Mas ainda não pensei em fazer um plano de previdência privada, por exemplo, mesmo se passar em um concurso;, afirma.

Educação financeira

O presidente da Gama Consultores, Antônio Gazzoni, avalia que parte do desinteresse da população em construir uma garantia para a inatividade, ou de colocar o assunto como uma prioridade, é fruto da falta de educação financeira. Ele afirma que a ideia enraizada no país de que cabe ao Estado garantir o provimento de recursos durante a velhice desestimula o debate. ;Nosso sistema, para quem trabalha no setor privado, é um dos mais generosos. Temos um teto de quase US$ 2 mil, mesmo com as restrições do fator previdenciário para conseguir esse valor. As discussões sobre o assunto precisam estar na agenda de desenvolvimento do país;, argumenta.

Sem detalhar o que seria necessário fazer para mudar o quadro de progressiva deterioração das finanças dos regimes de aposentadorias e pensões, o Ministério da Previdência Social afirmou que o assunto deveria receber toda a atenção dos governos e da sociedade na defesa de um sistema sustentável, que garanta todos os direitos conquistados pelos trabalhadores. O professor Renato Fragelli, da Fundação Getulio Vargas, não acredita em alterações de grande monta. ;Os avanços dependem de vontade política, mas fazemos mudanças a passos de cágado. Vamos continuar vendo os governos fazendo pequenas e limitadas alterações no sistema;, completa. (AT)

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação