Lista falsa de venda de sexo

Lista falsa de venda de sexo

Uma mensagem em redes sociais relaciona 301 estudantes de 12 estados e do DF à prostituição. Elas têm recebido ligações e torpedos com conteúdo ofensivo e reclamam do incômodo sofrido. Caso será investigado pela Polícia Civil

» GUILHERME PERA » MANOELA ALCÂNTARA
postado em 08/09/2014 00:00



Uma lista com 301 nomes e telefones de mulheres de 12 estados e do Distrito Federal circula pela internet com a afirmação de que elas são profissionais do sexo. No título da mensagem, uma afirmação define as donas dos contatos como ;piranhas;. O autor do catálogo ainda as separa como normais, de luxo e dá o preço dos possíveis programas. Porém, os números divulgados são de estudantes, mulheres comuns que começaram a receber mensagens e telefonemas eróticos. Elas sentiram-se ofendidas e foram a delegacias denunciar o caso. O Correio ouviu três moças que se sentem humilhadas e querem que o assédio pare.

Entre as citadas, oito moram em Brasília. Maria*, 21 anos, chegou a receber 500 mensagens no Whatsapp, fotos de homens nus e ligações durante a madrugada. ;Excluí meu WhatsApp, pois estava fora do controle. Mesmo assim, mandam mensagem e ligam;, conta. Ela e outra amiga, de 19, que também está na lista, foram até a Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), na última quinta-feira, um dia após a divulgação dos nomes. ;Disseram para procurarmos em algum site onde a lista estivesse, pois pelo WhatsApp não poderiam fazer nada. Falaram para eu trocar meu chip. Achei um absurdo; não tenho que mudar minhas coisas;, indigna-se.

A amiga de 19 anos comenta que o celular chega a travar com tantas mensagens. Os homens entram em contato, tentam adicioná-las em grupos com conteúdo pornô. Querem ainda saber quanto elas cobram e onde atendem. ;Um morador de Teresina (PI) me ligou para saber o preço do programa. Disse que não era prostituta e ele ficou enfurecido. Pensou que eu estava tentando enganá-lo;, relata.

Outra moça exposta no documento conseguiu registrar o Boletim de Ocorrência na 23; Delegacia de Polícia (P Sul). As três ; uma nutricionista, uma estudante de nutrição e outra de jornalismo ; desconfiam que a divulgação dos nomes começou como uma brincadeira, em janeiro deste ano. Na ocasião, não havia nada relacionado a prostituição. As primeiras mensagens para celular e e-mail as definiam como ;garotas bonitas de Brasília e de todos os lugares;. Porém, desde a última quarta-feira, há telefones de diversos estados do país e as meninas são definidas como prostitutas.

Todas as oito jovens com os nomes citados na lista têm um mesmo amigo em comum em uma página de relacionamentos na internet. ;Esse cara não tinha a intenção de crime, não foi para prejudicar. Achamos que alguém com acesso ao documento fez diversas formatações. A lista foi rodando, as pessoas foram editando e passando para a frente;, lamenta uma das vítimas.

Embora a Divisão de Comunicação da Polícia Civil não tenha um número exato de ocorrências sobre o assunto, ela confirmou, por meio de nota, uma reclamação registrada na 21; Delegacia de Polícia (Taguatinga Sul). A pessoa que denunciou tem 21 anos e faz as mesmas reclamações das moças ouvidas pela reportagem. De acordo com a Divicom, ;a ocorrência foi registrada e está em apuração na Seção de Investigação da unidade policial;.


Três
perguntas para

Celso Figueiredo,
professor de mídias sociais do Mackenzie (SP)

Como você encara essa questão de uma lista
de mulheres expostas como prostitutas?
Existe um paralelo interessante do universo da comunicação com o que está na moda. Isso vem logo após um usuário da rede social de compartilhamento de conteúdo 4Chan vazar as fotos da Jennifer Lawrence, atriz de Hollywood, nua. Vejo, em diversas entrevistas de delegados, a afirmação de que o crime se move em diferentes aspectos do mesmo tema. Por exemplo, enquanto os policiais investigam assaltos a banco, os ladrões migram para roubos a caixas eletrônicos e assim por diante. É o que acontece com o vazamento das fotos e dos telefones celulares.

Por que o WhatsApp tem esse
poder de
disseminação?
O Facebook ficou grande demais. Pais, tios e avós estão por lá. Então, os jovens têm evitado interagir por ali e migrado para o WhatsApp, onde fazem grupos. Nesses núcleos, adiciona-se quem bem entender e, de repente, há 50 usuários diferentes, muitos dos quais não se conhecem. Daí que uma lista, iniciada como ;As mais bonitas de Brasília e de todo lugar;, vira um guia telefônico de prostitutas.

As oito mulheres do Distrito Federal
relatam ter um amigo em comum em uma
rede social. Tem como evitar essa exposição?
É possível evitar. Você pode não estar nas redes sociais, mas quem está disposto a fazer isso? Nesses sites, você mantém amigos que não encontra com frequência, gente com quem não fala muito. A pessoa, para manter a privacidade, neste caso, tem que estar apta a sair desse mundo virtual.

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