Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 08/09/2014 00:00
Praia sem mar

Embora tão distante geograficamente do litoral, em Brasília há uma iminência do ar e seria muito natural se ele arremetesse em algum ponto do horizonte muito próximo. É uma sensação não apenas imaginária, mas também física. Nos dias de semana, o brasiliense costuma ser formal, vestir um fraque e uma cartola na alma.

Mas, insolitamente, nos fins de semana, com as retas intermináveis, a luminosidade prateada e a paisagem circundada de água, Brasília se despe da formalidade e ganha um ar de cidade litorânea, esportiva e solar. Uma praia sem mar, diria Clarice Lispector. Sempre tenho a sensação de que o mar pode irromper a qualquer momento no limite de alguma superquadra ou das linhas do Entorno.

Deve ser um delírio típico de sertanejos ou de nômades que vivem em regiões desérticas. O sertão vai virar mar ou vai virar Marte? O Lago Paranoá tira onda de mar em muitos trechos, se encrespando quando venta muito forte ou armando uma paisagem de orla carioca com seus barquinhos deslizando, lentamente, em ritmo de canção da Bossa Nova.

Algumas vezes, ao cruzar a Ponte JK vem a sensação de atravessar uma manhã de mar do Rio de Janeiro ou do Espírito Santo, com a reverberação muito viva da luz batendo na água. Imagino que Monet adoraria pintar as paisagens impressionistas de Brasília, em mutação a cada instante sob o ataque da luz.

E se você escapar do devaneio litorâneo e olhar para o alto, aí é que a sensação de mar se torna mas intensa, com as grandes massas de nuvens se movendo no azul aberto da cidade espacial. Mas de cabeça para baixo ou para cima, ele transmite uma imagem de grandeza, majestade e eternidade.

O sertão de Brasília vai virar mar algum dia? Se muitas invenções que só constavam da ficção científica se transformaram em realidade pela graça da ciência; se sintetizaram uma célula a partir do DNA de uma proteína, por que não seria possível acalentar o sonho de que ela produza uma matriz para a criação de um mar artificial em Brasília? A célula marítima concentraria o azul-esverdeado de Fernando Noronha, os arrecifes de Alagoas, o charme das praias cariocas e o desenho de paraíso terráqueo do Caribe.

Me contaram que um cantor norte-americano de blues visitou Brasília e começou a percorrer as pistas retas e intermináveis da cidade em um carro. Ele sempre pedia para ir adiante, pois queria ver o mar. A pessoa que o acompanhava explicou-lhe que, infelizmente, não havia isso em Brasília. Mas ele não acreditava, sentia que perto da linha do horizonte, em algum ponto muito próximo, o sertão viraria mar.




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