Escorregada de Woody Allen

Escorregada de Woody Allen

Ricardo Daehn
postado em 08/09/2014 00:00
 (foto: Imagem Filmes/Divulgação
)
(foto: Imagem Filmes/Divulgação )


As cenas menos plausíveis ; com absurdos recursos visuais de cinema escamoteando truques de mágica circense ; e o divertido andamento inicial de Magia ao luar, feito da incongruência de um ilusionista de estilo mandarim (mas gritante sotaque britânico) direcionam o espectador para ledo engano: há prenúncio de um belo filme.


E, de fato, não há feiúra, mesmo porque o diretor de Fotografia iraniano Darius Khondji é o mesmo do exemplar Meia-noite em Paris. Mesmo que posto à prova, o roteiro do novo filme de Woody Allen também é indulgente em exaltar a ;beleza da alma;, em contraponto aos atrativos de personagens mais viçosos. Aos olhos da tia, interpretada pela veterana Eileen Atkins (O fiel camareiro), o narcísico protagonista, Stanley (Colin Firth), é ;perfeito, sem ser enfadonho;. Mas haja benevolência.


Stanley se assume misantropo, e se perde naquele falatório que, como de costume, contempla ciência, filosofia e religião. Claro que há lampejos de graça, caso da persistente comparação de ectoplasma com algo da ;consistência de iogurte;, pelo que argumenta Stanley.
Celebridade no tablado em que executa seus números de mágica, ele é apegado a grosserias, e prega que ;autógrafos são para imbecis;, por exemplo. O radicalismo se infiltra na visão da vida, pela ordem, ;cruel, brutal e curta;.


Numa linha de autopastiche, Allen escorrega no foco (novamente), ao revolver elementos sobrenaturais externados em filmes como O escorpião de Jade, Scoop: O grande furo e Neblina e sombras. Ou seja, nada do que de mais louvável embale sua carreira.
Na base da descrença, o protagonista alinha o ceticismo na seriedade das mesas espiritualistas à desconfiança niilista reservada ao Vaticano. Disfarçado de comerciante de café e cacau brasileiros, ele tem por missão desmascarar a sorrateira médium Sofia (Emma Stone, do novo Homem-Aranha, por sinal, fraquíssima).


Além de uma introdução abrupta ; em que novamente a figura da mãe ganha relevo de amuleto (feito por Marcia Gay Harden); truque mais bem explorado em filmes como Tudo pode dar certo e Você vai conhecer o homem dos seus sonhos ;, um desequilíbrio na elaboração dos personagens prima pela dissonância: há enorme falta de sentido e de malícia na maioria dos tipos.

Notas reforçadas

Mesmo com alguma graça (entre as quais a da ;lógica; e do ;bom senso; que determinam o amor da pretendente de Stanley), Allen parece propenso a encher cada quadro com reciclagem de situações déjà vu ; vemos partidas em quadra de tênis, armações de golpe (ou não), ambições egocêntricas e serenatas estridentes, como que numa autocelebração. Além de absolutamente voláteis, os coadjuvantes (costumeiros acertos de Allen) trazem desagradável caráter unidimensional.


Ingênuos, numa fauna em que Hamish Linklater (Batttleship) e Jacki Weaver (Reino animal) nadam no marasmo (ambos posando de ricos imbecilizados), pouco geram inquietação ou estímulo. Emma Stone faz pulsar a saudade de personagens brejeiros de Samatha Morton, Mariel Hemmingway e Scarlett Johansson, entre outras. Resta terreno então para Colin Firth ; divertido, na pele do homem que não sabe compartilhar e dado a elogios desmilinguidos, entre os quais o da beleza de Sofia, ;desde que a luz seja a correta;.

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