SP vira praça de guerra

SP vira praça de guerra

Em meio a confrontos, ônibus incendiado e mais de 80 detidos, reintegração de posse de um prédio no centro da capital paulista evidencia o problema do deficit habitacional no Brasil, que atinge 9% das famílias do país

postado em 17/09/2014 00:00
 (foto: Taba Benedicto/Reuters)
(foto: Taba Benedicto/Reuters)

A praça de guerra em que se transformou o centro de São Paulo, ontem, durante a reintegração de posse de um prédio ocupado por sem-teto, evidenciou um problema estrutural no Brasil. O deficit habitacional ; que atinge 5,7 milhões de famílias brasileiras ou 9,1% do total ; tem caído no país de forma global. Apesar disso, nas metrópoles, a última medição da Fundação João Pinheiro, usada pelo governo federal para fazer as políticas na área de moradia, mostrou um salto de 10,2%. Entre 2011 e 2012, base de dados mais atualizados, o número de arranjos familiares sem uma casa adequada subiu de 1,6 milhão para quase 1,8 milhão em nove capitais.

Em São Paulo, o deficit habitacional explodiu, no mesmo período, passando de 592 mil para 700 mil famílias ; variação de 18%. O indicador, que mede a quantidade de pessoas sem local adequado para morar, leva em consideração dados como número de domicílios precários e de habitações divididas por mais de uma família dividindo a mesma residência por falta de opção. Aspectos presentes no Hotel Aquarius, no centro da capital paulista. A desocupação forçada do imóvel abandonado terminou com cerca de 80 detidos, dos quais 75 eram pessoas que se recusaram a sair do local, além de dois presos por suposta lesão corporal, seis por furto e uma mulher suspeita de incendiar um ônibus. Cinco policiais ficaram feridos, assim como civis, entre eles ocupantes do edifício.

A confusão começou às 6h de ontem, quando a Polícia Militar deu início à reintegração de posse do prédio, determinada pela Justiça a pedido do dono do imóvel, que havia sido ocupado pelo grupo estimado em 200 famílias há cerca de seis meses. Barricadas foram montadas. Houve tumultos e confronto com a polícia ; muitos deles protagonizados por estudantes, mascarados e vândalos. Um ônibus teve vidros quebrados e foi incendiado. Policiais responderam aos ataques com balas de borracha e bombas de efeito moral, que levaram pessoas a passar mal. Lojas foram saqueadas. Alguns estabelecimentos acabaram destruídos. O comércio na região teve de ser fechado.

Provocações
Lideranças da Frente de Luta por Moradia (FLM), que ocupava o prédio retomado, sustentaram que a PM agiu violentamente primeiro, logo depois de cercar o prédio com os homens do Batalhão de Choque, e que grupos que fazem protestos se aproveitaram da situação. Já a PM alega que as agressões partiram dos sem-teto, que atiraram pedras, cocos e até móveis nos policiais, como sofás. O tumulto que começou nas imediações do edifício, na Avenida São João, espalhou-se pela região central de São Paulo. No início da tarde, o clima já era mais calmo. Entretanto, novas barricadas foram montadas pelos manifestantes pouco antes do anoitecer. Vias tiveram de ser bloqueadas, atrapalhando o trânsito em um horário naturalmente complicado para o paulistano.

Entre os presos na confusão de ontem, Bruna Oliveira é a única suspeita de atear fogo em um ônibus. Ela foi reconhecida pelo sargento da PM Ivair Pires como integrante do grupo de aproximadamente 15 mascarados que praticaram atos de vandalismo contra o coletivo, próximo ao Teatro Municipal. Autoridades apontaram a jovem como uma recém-despejada de outra ocupação. Ela teria sido retirada há cerca de uma semana de uma tenda no Terminal Parque D. Pedro 2;, com os três filhos. Durante a varredura no prédio desocupado, 12 coquetéis molotov foram encontrados, segundo a PM. A instituição afirmou que abriu sindicância para apurar a conduta dos policiais e dos sem-teto.

5,7 milhões
Número de famílias brasileiras que não têm moradia adequada


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