Kiev acena com a UE e com rebeldes

Kiev acena com a UE e com rebeldes

Rodrigo Craveiro
postado em 17/09/2014 00:00
 (foto: Twitter/Reprodução)
(foto: Twitter/Reprodução)


A Ucrânia viveu ontem um dia de decisões políticas polêmicas e com forte apelo simbólico. Parlamentares reunidos em Kiev aprovaram leis que oferecem maior autonomia a partes das regiões de Lugansk e Donetsk, controladas pelos separatistas pró-Rússia, no leste do país. Elas terão a responsabilidade de estabelecer um governo autônomo provisório de três anos, em nível ;de distritos, conselhos municipais e conselhos locais;. Os legisladores estipularam que as áreas vão sediar eleições em 7 de dezembro e concederam anistia aos rebeldes.

Horas depois, o governo ucraniano ratificou o Acordo de Associação com a União Europeia (UE) ; medida avalizada por todos os 355 deputados presentes. ;A votação de hoje é a eleição da civilização da Ucrânia. A Ucrânia é a Europa;, declarou o primeiro-ministro, Arseniy Yatsenyuk. Em Estrasburgo (leste da França), o Parlamento Europeu validou o acordo com 535 votos a favor, 127 contra e 35 abstenções. ;Este é um momento histórico;, afirmou Martin Schulz, presidente da Eurocâmara.

O ucraniano Arseniy Svynarenko, sociólogo da Universidade de Helsinki (Finlândia), lembra ao Correio que a concessão de autonomia às regiões separatistas obedece às negociações com o presidente da Rússia, Vladimir Putin. ;É fato que a liderança das autoproclamadas repúblicas não goza de independência nas decisões; as ordens são ditadas por Moscou. A nova legislação é uma chance de uma saída positiva para a crise. Tudo vai depender da reação do Kremlin;, opinou. Ele crê que Putin pode aproveitar a oportunidade para alegar sucesso na defesa dos interesses da população russa no leste da Ucrânia e proclamar vitória ; estratégia capaz de aliviar as sanções ocidentais. ;Para Kiev, tal solução seria positiva, pois a Ucrânia conseguiria a descentralização de duas regiões, mantendo a integridade territorial;, comenta o especialista.

De acordo com Svynarenko, o processo poderia fazer com que Donetsk e Lugansk se tornassem as primeiras regiões dotadas de uma governança local sólida. ;Se Moscou não aceitar a nova legislação, enfrentará sanções mais severas do Ocidente;, alerta. Pós-doutor em história pela Universidade Estadual de Moscou, Sergey Markedonov explica ao Correio que os direitos de autonomia dizem respeito somente a partes da região de Donbass, enquanto os insurgentes pretendem estendê-los a Donetsk e a Lugansk. ;Não se trata de uma lei recentemente adotada, mas de condições do protocolo de cessar-fogo; assinado em 5 de setembro, em Minsk, observa. ;O papel da Rússia é forte, e o Ocidente não está pronto a intervir com ajuda militar. Kiev terá a oportunidade de implementar uma nova lei e controlar setores que estão além de seu domínio;, acrescenta.

O Acordo de Associação com a UE é o mesmo ao qual o ex-presidente Viktor Yanukovich renunciou, em novembro de 2013, optando por uma aproximação com a Rússia e deflagrando a crise. O texto vincula a Ucrânia ao bloco sem definir data de adesão e estabelece que ;a União Europeia reconhece as aspirações europeias da Ucrânia e saúda sua opção pela Europa, inclusive seu compromisso de construir uma democracia profunda e duradoura, e uma economia de mercado;. Os aspectos comerciais não entrarão em vigor até dezembro de 2015.



Um deputado foi parar no lixo



Aconteceu em Kiev. Uma multidão enfurecida cercou o deputado ucraniano Vitaly Zhuravsky e o jogou dentro de uma caçamba de lixo. O episódio ocorreu minutos antes de uma sessão na qual os parlamentares ratificaram o acordo entre a Ucrânia e a União Europeia e apoiaram a concessão de status especial às regiões controladas pelos separatistas. Enquanto tentava escalar para fora da lixeira, o parlamentar teve a cabeça pressionada pelos manifestantes, que colocaram um pneu sobre ele. Antes que Zhuravsky pudesse se libertar, teve vodca derramada sobre a cabeça, enquanto uma mulher gritava, em russo: ;Garotos, me deixem chutá-lo ao menos uma vez;. Ex-membro do partido do presidente deposto Viktor Yanukovich, ele tornou-se impopular em janeiro, ao apresentar um projeto de lei que ampliou as restrições sobre os ativistas contrários ao governo. Não ficou clara a motivação do protesto de ontem.



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