Jurassic park

Jurassic park

Perda de 21 pontos imposta ao América-MG reabre a discussão sobre o arcaico sistema de registros da CBF. Especialistas ouvidos pelo Correio detonam o atraso tecnológico. Consultada, entidade se esquiva

Amanda Martimon
postado em 17/09/2014 00:00
 (foto: Yasuyoshi Chiba/AFP - 19/8/14)
(foto: Yasuyoshi Chiba/AFP - 19/8/14)


Diante dos repetidos casos de escalação irregular que levam para fora de campo os resultados do futebol ; o mais recente deles é a punição ao América-MG (leia matéria abaixo) com perda de 21 pontos ;, ressurgem questionamentos, no meio esportivo, sobre o sistema eletrônico usado pela Confederação Brasileira de Futebol. O banco de dados não impede, comunica ou se responsabiliza por eventuais irregularidades na escalação de atletas. Especialistas ouvidos pelo Correio, na área de tecnologia e de direito desportivo, apontam a defasagem do atual modelo e indicam um fácil caminho para informar, antes da partida, qual é a situação de cada jogador. A entidade não se pronunciou sobre possíveis mudanças no sistema.

Embora tenha informatizado o registro de atletas, por meio do Boletim Diário de Informações, o BID, e disponibilizado um sistema interno, acessado por login e senha pelos clubes, onde é possível verificar a situação dos jogadores, como suspensões por cartões e punições aplicadas pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva, a CBF não se responsabiliza por supostos casos de escalação irregular. O sistema eletrônico da entidade sofre com falhas de atualizações e limitações tecnológicas, como não alertar aos clubes casos de irregularidade com algum atleta. No entanto, o Código Brasileiro de Direito Desportivo prevê que é dever dos times não relacionar jogadores sem condição de jogo.

Assim, a punição aos clubes, e não à CBF, está dentro dos critérios impostos pela legislação. Para o diretor do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo, Gustavo Souza, o que os chamados ;tapetões; trazem à tona é a necessidade de pensar em mudanças. ;Como entidade responsável pelo futebol no Brasil, a CBF não pode se preocupar só em fazer tabelas e organizar a logística da arbitragem. Entre as funções dela, deveria estar a de garantir aos clubes a regularidade dos atletas. Mantendo os registros válidos e alertando aos times quando houver irregularidade;, avalia.

Entre os clubes possivelmente prejudicados pelo sistema da CBF, o Brasília, um dos que enfrentam os tribunais para atestar a regularidade na escalação de jogadores, também defende um modelo eletrônico mais moderno. ;Uma coisa é certa. O Brasília não errou e não gerencia o sistema da CBF. Eu não saberia dizer qual modelo deveria ser adotado, mas, certamente, é possível implantar um sistema que permita identificar as condições de jogo do atleta antes da partida;, opina o diretor jurídico do clube, André Andrade.

Colocar a ideia em prática não seria difícil. Professora na área de engenharia de software da Universidade de Brasília, Edna Canedo se surpreende com a defasagem. ;Seria extremamente fácil. É possível atualizar até em tempo real, sem grande número de profissionais. Hoje, no mundo da computação, esse tipo de sistema é muito simples. O programa deles deve estar muito desatualizado.;

Procurado pela reportagem, Virgílio Elísio, diretor de Competições da CBF, disse que se pronunciaria por meio da assessoria da entidade, o que não ocorreu até o fechamento desta edição.

Saiba mais
O caso da Copa Verde
O Brasília foi denunciado por suposta escalação irregular na final do torneio. Os contratos de quatro atletas foram renovados, mas não
constavam no BID. Além da falha na atualização do boletim, assumida pela CBF, o clube questiona um item do regulamento, que pode mostrar mais um ponto de desorganização do sistema da entidade. Embora a CBF não tenha atualizado o BID, o DURT-e (Documento Único de Registro e Transferência Eletrônico) atestava a regularidade dos jogadores à época do jogo, em abril deste ano. As regras específicas da Copa Verde permitiam consultas no ;BID-e e/ou DURT-e;.

Leia a reportagem do confronto entre Oeste e Vasco,
na Arena Amazonas, em Manaus, no site
www.df.superesportes.com.br

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação