Viva o cinema brasileiro!

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Mostra Reflexos do Golpe traz obras-primas de diretores que enfrentaram a ditadura e a censura

Ricardo Daehn
postado em 17/09/2014 00:00
 (foto: Caraminhola Filmes/Divulgação)
(foto: Caraminhola Filmes/Divulgação)




Lembrando da opressão vivida à época da ditadura, um dos mais revolucionários diretores do cinema brasileiro, Nelson Pereira dos Santos, ainda hoje, aos 86 anos, guarda cicatrizes. Questionado sobre a inclusão do longa O amuleto de Ogum (1974), na programação de sexta-feira da mostra Reflexos do Golpe, o interesse do autor do clássico Rio 40 graus segue outro rumo. Quer mais é falar de assunto que quase ninguém toca: a destruição do negativo original, ;como ficou provado;, do seu filme El justiceiro, queimado pela censura.

Numa nuance irônica, Nelson Pereira conta que O amuleto de Ogum padeceu, com uma ;maneira mais gentil de se censurar;. ;Para mim, filmar trouxe o conhecimento de uma realidade carioca. O Amuleto faz uma visita a uma religião popular: a umbanda, especialmente. Tive pesquisa profunda com o pai-de-santo Erney José, de Duque de Caxias. As cenas das festas de umbanda foram feitas no dia de cada santo, de modo documental. O filme foi pensado para o grande público e acabou passando numa sala para 200 pessoas, com a anuência da distribuidora, sendo inclusive afastado da programação da Embrafilme, que era um órgão do governo;, explica. Foi uma frustração nesse sentido, já que a exibição ficou limitada a um nicho da Zona Sul carioca.

O amuleto de Ogum faz uma ponte interessante com outros filmes de Reflexos do Golpe. Enquanto emprestou a voz para o clássico de Nelson Pereira, o ator Milton Gonçalves fez dobradinha com outros títulos selecionados, Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade) e Eles não usam black-tie (Leon Hirszman).

;Poucos têm ideia do que era ser negro numa ditadura. Nesses filmes, havia a real inclusão do povo negro brasileiro, afrodescendentes que dão a mescla de raça detectada em 52% da população, segundo o IBGE;, ressalta. Combativo, o cineasta Leon Hirszman estava alinhado ao Teatro de Arena. ;Eles não usam black-tie é o filme do meu coração. Antes mesmo de ser ator, entendíamos a falta de perspectiva que tínhamos. Aliás todas as vezes que passa a imagem da homenagem ao meu personagem Bráulio, eu choro. Vejo muito do povo, na cena, da questão dos sonhos e dos fracassos de muitos;, destaca Milton Gonçalves.

Lembrando da delicadeza de Joaquim Pedro de Andrade, Gonçalves, aos 80 anos, não deixa de reverenciar a gigante figura de Grande Otelo. ;Fui escada dele, na TV Globo, e substituí Otelo num show do Copacabana Palace. Pelo linguajar, ele talvez nem tivesse noção da dimensão do que fazia. Por ser de outra geração, talvez nem notasse do respeito ao cidadão que imprimia. Mas, Macunaíma está aí com olhar da inteligência do Joaquim Pedro, num filme em que o negro fica branco, entre outras questões colocadas com muito humor;, explica.

A herança cultural de Eles não usam black-tie persiste tanto, que, por exemplo, se materializou até nas filmagens de Introdução à música do sangue (em preparação por Luiz Carlos Lacerda), com elenco integrado por Bete Mendes e Ney Latorraca. ;Não há melhor exemplo da atualidade de Black-tie;, diz Bete Mendes, entusiasmada pela mostra em Brasília, ao citar o novo filme de Luiz Carlos Lacerda, no qual o diretor presenteia os atores com uma homenagem ao clássico baseado na peça de Gianfrancesco Guarnieri, reproduzindo a antológica cena de Fernanda Montenegro, separando o feijão das pedras. ;Fazer Eles não usam black-tie foi muito importante para mim, não só artisticamente, mas também por estar com meus amigos Guarnieri e Leon Hirszman, em uma obra que considero referência em nosso cinema. Passados tantos anos, continua atual;, observa Bete.

Na estrada
Atualidade é o que não falta à mostra Reflexos do Golpe, pelo que comenta o diretor Jorge Bodanzky do selecionado Iracema, uma transa amazônica, fita com codireção de Orlando Senna, e que completa 40 anos. ;Tenho visitado a região Amazônica sistematicamente e posso afirmar que todos os temas abordados no filme, tais como devastação, trabalho escravo, violência e morte no campo, prostituição, ocupação desordenada, grandes projetos equivocados, abandono da estrada Transamazônica, miséria na periferia das grandes cidades, continuam a ter uma triste atualidade;, destaca, em torno do filme vitorioso do prêmio Candango, como melhor longa.

Rodado em plena ditadura militar, em 1974, numa região dada como área de segurança nacional, o longa trouxe ousadia e um grande risco para a equipe. ;Filmamos no canteiro de obras da Transamazônica que, na propaganda oficial, era tida como o maior projeto de desenvolvimento do Brasil, e nós apenas mostramos a realidade. O filme sofreu seis anos de censura, o que não impediu que tivesse, à época e até hoje, uma intensa visibilidade no exterior. Na Alemanha, foi incentivado pelo governo e adotado como didático nas escolas;, explica Bodanzky.

;As Iracemas ; prostitutas de um contexto defasado ; continuam a proliferar por aí;, acrescenta Bodanzky, enquanto lembra das represálias à fita que, censurada, teve uma grande distribuição clandestina em cineclubes, sindicatos, nas comunidades de base da Igreja e nas universidades.




Depoimento
;Bye bye Brasil foi uma alegria inesquecível, pelo fato de trabalhar com o Cacá Diegues, sempre tolerante, e pela companhia do José Wilker, parceiro, irmão e amigo da vida toda. Um filme importantíssimo, pelo momento político da ditadura. Acho que foi dos momentos mais criativos do cinema brasileiro e da música popular; quando driblávamos a repressão. No filme, saímos pela Transamazônica, chegamos ao sertão alagoano, depois alcançamos Maceió, vivendo na pele o conhecimento de um Brasil diferente, até a chegada em Brasília. Foi tudo ótimo: saímos das filmagens para desembocar em Cannes. Foi bom demais.
Betty Faria, atriz de Bye bye Brasil, atração de domingo, na mostra Reflexos do golpe



Você sabia?
A realização do Festival de Brasília foi proibida pelo regime autoritário entre os anos de 1972 a 1974. Daí descende a identidade combativa da mostra cinematográfica que voltou a acontecer sob forte censura do Estado. Em 2014, apesar de alcançar a 47; edição, comemora-se os 49 anos de resistência do evento.



Espaço para coproduções
Começa hoje no Museu Nacional da República, a mostra Continentes paralelos, que faz um panorama das coproduções latino-americanas com seis filmes selecionados pela produtora Vânia Catani. Produções conjuntas, ela explica, se tornaram uma tendência no continente e são reflexo da boa saúde do cinema da América Latina. ;Na primeira fase da retomada

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