O mapa da cor brasiliense

O mapa da cor brasiliense

Exposição com 20 nomes da cidade apresenta levantamento de uma geração de jovens artistas dedicada à pintura

Nahima Maciel
postado em 17/09/2014 00:00
 (foto: Clarice Gonçalves/Divulgação)
(foto: Clarice Gonçalves/Divulgação)








A pintura brasiliense tem uma cara, uma forma e uma dinâmica que, na última década, tomou corpo e se consolidou em uma produção consistente. Ela é produzida por jovens artistas que encontraram formas criativas de associação e de investigação para mergulhar na técnica artística mais antiga da história do homem. No entanto, nunca foi apresentada ao público em conjunto, reunida de forma que o percurso traçado pela nova geração de pintores pudesse ser visto em perspectiva. Por isso o curador Matias Monteiro decidiu tomar as rédeas e montar Vinte ; Pintura e pictorialidade em Brasília 2000-2014, em cartaz no Espaço Cultural Marcantonio Vilaça.

Segundo Monteiro, são três os fatores que estimularam o aparacimento de uma jovem geração de pintores brasilienses. O primeiro deles é o ateliê de pintura da Universidade de Brasília (UnB). ;Todos os artistas passaram por lá;, explica. À formação acadêmica soma-se a enorme quantidade de ateliês coletivos, uma alternativa aos preços praticados pelo mercado imobiliário da cidade. A convivência gera diálogo e trocas que refletem na produção. Monteiro lembra ainda o surgimento de instituições culturais como a Caixa e o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), que não têm muito espaço para a produção local mas que exigem a profissionalização de montadores, iluminadores e curadores, e alimentam uma cadeia fundamental nas artes visuais.

Tendências
Mais recentemente, os espaços autônomos e novas modalidades de circulação dos artistas ; como o mapeamento do Rumos Visuais, as residências e o prêmio PIPA ; têm fomentado o encontro de gerações e a troca de ideias. ;Vivemos num momento em que os artistas estão circulando muito;, garante Monteiro, que também documentou o depoimento dos artistas em vídeo exibido durante a exposição. Vinte, ele explica, é uma tentativa de mapear a produção atual e de identificar as tendências. No conjunto selecionado pelo curador, há dois caminhos claros. A figuração é o mais explícito. ;Ela é a mais forte e mais representativa na exposição;, diz. A abstração e a experimentação pictórica vêm em segundo e aqui o curador tomou a liberdade de expandir o conceito de pintura tradicional, com tela, tinta e pincel, para experiências que repensam a técnica a ponto de desconstruí-la.

Entre os figurativos, as temáticas são variadas. ;Tem uma coisa interessante que é o bestiário, os animais da Alice Lara, do Moisés Crivelaro e do Renato Rios;, conta o curador. A diversidade, no entanto, é a marca do conjunto. As colagens de Pedro Ivo Verçosa, o diário interiorano e contraditório de Fábio Baroli, o feminino ao mesmo tempo violento e delicado de Clarice Gonçalves e as experiências minúsculas de Taigo Meireles formam um conjunto rico e promissor.

No lado da abstração, Monteiro extrapolou as fronteiras da tela e trouxe discussões sobre a própria condição da pintura. Os objetos cromáticos de Raquel Nava propõem uma reflexão sobre a importância das cores e os chassis e telas amontoados de Samantha Canovas falam da desconstrução da técnica. Marília Saenger oferece ao público apenas uma visão da borda das telas, empilhadas como se fossem livros, e Rodrigo Cruz troca pinceis por carvão, com o qual produz manchas e investiga formas.

Ver todos os trabalhos juntos fez Pedro Ivo Verçosa enxergar um diálogo entre os trabalhos. ;Eles conversam um com o outro, apesar da grande multiplicidade. São pessoas que trabalham juntas, dividem espaços, compartilham ideias. Colocar as pessoas lado a lado e mostrar o que aconteceu, é importante. É um levantamento mais que um recorte;, avalia o artista.

Alice Lara conta que a mostra é o momento de analisar como aconteceu e em que resultou o investimento em pintura por parte dessa nova geração. ;Era uma necessidade que a gente tinha porque é um grupo grande de pintores e a gente sentia a reverberação e via os colegas fazendo coisas diferentes;, conta. ;Então a gente começou a cobrar um mapeamento.;



Vinte ; Pintura e pictorialidade em Brasília 2000-2014
Exposição com obras de 20 artistas da cidade. Curadoria: Matias Monteiro. Visitação até 1; de novembro, de segunda a sexta, das 9h às 19h, e sábado, das 14h às 18h, no Espaço Cultural Marcantonio Vilaça (TCU ; SAFS Quadra 4, Lote 1, Edifício Sede).



"Os trabalhos conversam um com o outro, apesar da grande multiplicidade. São pessoas que trabalham juntas, dividem espaços, compartilham ideias;
Pedro Ivo Verçosa, curador da mostra Vinte



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Veja galeria de fotos e teaser do documentário sobre os artistas.

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