Alta do desemprego

Alta do desemprego

postado em 30/09/2014 00:00
O quadro pessimista traçado ontem pelo Banco Central no Relatório de Inflação deixa claro que a persistência do quadro de inflação elevada e de crescimento nulo terá consequências drásticas para o país. Segundo o diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, com o país em recessão, o trabalhador terá o emprego em risco. ;Nós não fazemos projeção para taxa de desemprego, mas acreditamos que, em linha com o ciclo econômico (mais fraco), o mercado de trabalho deve passar por alguma correção nos próximos trimestres;, disse.

Ou seja, diante do crescimento nulo da economia neste ano, o BC acredita que o mercado de trabalho pode ter piora significativa antes mesmo de 2015 chegar. A julgar pelos números recentes, o cenário não pode ser descartado. Apesar de ainda ser considerada baixa, a taxa de desemprego sobe há dois meses consecutivos, e segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atingiu, em agosto, o segundo maior patamar do ano, alcançando 5% da População Economicamente Ativa (PEA).

O economista-chefe da INVX Global Asset, Eduardo Velho, não tem dúvidas de que o nível de emprego será afetado com a permanência da economia numa zona de baixo crescimento. ;Nas últimas crises, todo o impacto que o país sentia era no câmbio, com o dólar disparando acima de R$ 4. Agora é diferente. A mudança se dará basicamente no mercado de trabalho;, disse.

Tempos difíceis

Opinião semelhante tem o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, que projeta tempos difíceis para o país. ;Teremos um período muito doloroso para a economia nos próximos anos. E, nesse caso, não restará muito para o BC fazer.;

Parte da solução dos problemas, porém, talvez esteja no próprio ajuste do mercado de trabalho, já que o BC afirma que uma das causas da inflação persistentemente alta e do baixo crescimento é a elevação dos salários acima do crescimento da produtividade dos trabalhadores. ;O crescimento dos salários permite às pessoas consumirem mais e aumentarem o bem-estar. Mas é importante que os ganhos desses salários se convertam em produtividade, senão, em algum momento, esse processo resulta em mais inflação, o que prejudica todo mundo, inclusive os trabalhadores;, assinalou Carlos Hamilton.

Por prever essa ;correção; nos níveis de emprego, o BC aposta que a inflação tende a perder força a partir de 2016. ;Acreditamos que a inflação de salários vá se moderar no nosso horizonte de trabalho (de dois anos à frente);, disse o diretor.

Confronto
As palavras de Hamiton desagradaram ao Palácio do Planalto. Ao longo da campanha eleitoral, Dilma e seus colaboradores vêm afirmando que será a eventual vitória da oposição, e não a reeleição da presidente, a resultar em aumento do desemprego. A reprovação ao discurso do diretor foi ainda maior na parte em que ele decidiu encampar a proposta da candidata Marina Silva (PSB) de conceder autonomia formal ao Banco Central e garantir mandatos fixos para seus dirigentes.

Fontes do governo classificaram como ;um erro; as declarações do diretor. Já integrantes do mercado financeiro aplaudiu a ;coragem; de Hamilton em tocar em tema tão sensível. ;A constatação de que a autonomia legal ; e não apenas operacional ; do BC é relevante está de acordo com as boas práticas de bancos centrais pelo mundo. Países com esse arranjo institucional conseguem taxas menores de inflação ao longo do tempo;, disse Sérgio Vale, da MB Associados. Pare ele, apesar do avanço na discussão, o tema será enterrado após a eleição, caso Dilma Rousseff seja vitoriosa.

Segundo Vale, nessa hipótese, o BC teria ainda menos poder para definir a política monetária. ;Não acho que a autonomia do BC seria respeitada num segundo governo Dilma. Pelo contrário, o órgao seria instado a baixar os juros em 2015, mesmo com a inflação elevada e com o choque cambial que virá se a presidente for reeleita;, afirmou (DB e RH)


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