Posse e atentado em Cabul

Posse e atentado em Cabul

LUCAS FADUL
postado em 30/09/2014 00:00
 (foto: Shah Marai/AFP )
(foto: Shah Marai/AFP )



O ex-ministro das Finanças Ashraf Ghani, 65 anos, tornou-se ontem o primeiro presidente na história do Afeganistão a tomar posse como sucessor eleito de um chefe de Estado igualmente eleito. Foi a primeira transição de poder em Cabul desde que os Estados Unidos lideraram uma invasão, em 2001, para depor o regime da milícia extremista Talibã. Em discurso, ele prometeu dar início aos diálogos de paz com os insurgentes islâmicos. ;Estamos cansados de guerra;, declarou. ;Nossa mensagem é a paz, mas isso não significa que somos fracos;, advertiu Ghani, que busca estabilizar o país antes da retirada das forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), no fim do ano.

Os talibãs já qualificaram o novo governante como ;funcionário dos EUA;. Ontem mesmo, durante a cerimônia de posse, um atentado reivindicado pelos extremistas deixou quatro mortos no aeroporto da capital. De acordo com um porta-voz dos rebeldes, Zabiullah Mujahid, o autor do ataque foi um homem-bomba, que tinha como alvo potencial soldados afegãos e estrangeiros.

Empossado após uma prolongada crise política em torno do resultado das eleições de junho, resolvida por meio de um pacto com o rival Abdullah Abdullah, Ghani estendeu aos insurgentes o convite ao diálogo. ;Pedimos aos opositores, mais especificamente aos talibãs e ao Hezb-e-Islami, o início de conversações políticas;, indicou Ghani, referindo-se a outra facção extremista.

Apesar do aceno ao entendimento para resolver o problema do terrorismo, um assessor da Casa Branca reforçou que a transição no governo afegão permitirá a assinatura, hoje, de um pacto visando à manutenção das tropas norte-americanas no país depois de 2014 ; com a função de treinar e assessoras as forças locais. Ex-ministro das Finanças e ex-funcionário do Banco Mundial, o novo chefe de Estado foi eleito para suceder Hamid Karzai, que, em 12 anos de governo, fez diversos apelos aos talibãs para que se integrassem a um processo de paz. Os extremistas, todavia, jamais aceitaram sentar-se à mesa de negociações, por considerarem Karzai uma ;marionete; de Washington.

Perguntado pelo Correio sobre a possibilidade de um acordo de paz entre o governo de Cabul e o Talibã reverberar de maneira positiva em outros países atingidos pelo terrorismo, o cientista político Heni Ozi Cukier, professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), mostrou-se cético. ;A realidade do Afeganistão é diferente da dos outros países que lutam contra o extremismo. Trata-se de uma nação fragmentada, de difícil governabilidade;, comparou. ;Não acredito que a negociação trará a paz aos afegãos;, lamentou o especialista.


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