Senhores passageiros...

Senhores passageiros...

Quatro livros recém-lançados têm a viagem como tema central e funcionam como guias inusitados para quem quiser descobrir lugares por meio da literatura. Um filão literário que não para de crescer

» Nahima Maciel
postado em 30/09/2014 00:00
 (foto: Companhia das Letras/Reprodução)
(foto: Companhia das Letras/Reprodução)

Livros de viagem são quase literatura fantástica. Pegam o leitor pela mão, o levam para paisagens desconhecidas, ainda que familiares, e exigem da imaginação uma certa dose de fantasia para embarcar na viagem. Por mais que falem de lugares reais e tangíveis, as narrativas de viagem já brotam enviesadas. É pelo olhar do autor que o leitor vai descobrir o mundo.

O escritor português José Luís Peixoto já sabia disso quando decidiu visitar a Coreia do Norte, o país mais fechado e isolado do planeta, para trazer de lá material para um livro de viagem. Dentro do segredo é o resultado dessa incursão, assim como Altos voos e quedas livres é o resultado da aventura do inglês Julian Barnes no mundo do balonismo europeu.

Recém-lançados, os dois livros fazem parte de uma leva de literatura de viagem que não nasceu, necessariamente, com esse propósito, mas que se presta muito bem à descoberta de lugares e pessoas. De autores brasileiros, as livrarias também recebem Viagem à Calábria, romance de Sérgio Capparelli, e O filósofo peregrino, de Marcos Bulcão, um apaixonado pelo gênero literário.

Não se trata aqui de guias de viagem, com descrições históricas e dicas preciosas sobre como transitar por um ou outro lugar. Na maioria das vezes, essa literatura capaz de levar o leitor até as lacunas que os guias não preenchem, sequer nasce como narrativa de viagem. No entanto, esses livros acabam se transformando nos melhores instrumentos para aprofundar o conhecimento sobre lugares e culturas.

Não se pode dizer, por exemplo, que James Joyce e seu Dublinenses não sejam um excelente guia para adentrar a cultura irlandesa, ou que Paris é uma festa, de Ernest Hemingway, não seja muito mais eficiente ao descrever a Cidade Luz nas décadas de 1940 e 1950 do que qualquer guia dividido em verbetes.

Charles Dickens também fez um excelente retrato de Londres em Oliver twist, embora o romance não tenha sido escrito com esse objetivo. ;É muito difícil definir o que é um livro de viagem;, diz Carlos Andreazza, editor de não-ficção da Record. ;Mas é muito fácil encontrar elementos de viagens em livros que não são do gênero. A obviedade entra em livros que se propõem a isso, mas ela pode não estar presente em outros livros. É um grande desafio!” Saiba do que tratam os quatro volumes selecionados pela reportagem.


Dentro do segredo ; Uma viagem
pela Coreia do Norte
Quando conseguiu organizar a viagem ao país de Kim Jong-un, José Luís Peixoto tinha o desejo de escrever o livro, mas ainda estava em dúvida sobre a qualidade do material que recolheria durante a excursão. Não sabia direito o que encontraria. Uma vez em território norte-coreano, Peixoto se convenceu da necessidade do livro, apesar de ter assinado um documento no qual se comprometia a não escrever nada sobre o país.

Dentro do segredo, na verdade, não revela nenhum segredo. Para os turistas, as autoridades montam cenários nos quais a Coreia do Norte é um reduto de pessoas felizes e bem-alimentadas que trabalham em fábricas produtivas pelo crescimento do país. Em muitos momentos, espera-se que o autor revele (ou confirme) os problemas da nação mais fechada do mundo, mas ele não o faz.

No entanto, isso não que dizer que feche os olhos para as dificuldades que rondam o país ; crimes contra a humanidade já foram relatados pela Organização das Nações Unidas, assim como campos de trabalho forçado, fome, miséria e repressão violenta. ;Isso não está no livro, embora tenha uma ironia que nos leve a imaginar isso. O que o livro tenta, concretamente, é descrever o que foi aquela viagem;, explica o autor.

Altos voos e quedas livres
O novo livro de Julian Barnes é um misto de história com memórias pessoais. Na primeira parte estão as viagens. O autor toma três personagens ; a atriz Sarah Bernhardt, o fotógrafo Félix Tournachon Nadar e o coronel britânico Fred Burnaby ; para falar da paixão pelo balonismo que acometeu a Europa no século 19. Nadar, além de um dos maiores fotógrafos do período, era também um aficcionado pelos ares e fez algumas viagens em balões.

Bernhardt, que certa vez empreendeu uma viagem histórica em um balão, foi amante de Burnaby, outro fascinado pelo balonismo e pela possibilidade de ver o mundo do alto. ;Balonismo;, escreve Barnes, ;representava a liberdade ; só que uma liberdade subserviente aos poderes do centro e do clima.;

Viajar pelos ares, registrar as imagens, no caso de Nadar, ou simplesmente cumprir um trajeto, no caso do coronel, eram possibilidades fascinantes naquele século. E Sarah Bernhardt era uma adepta das viagens. A atriz francesa chegou a vir ao Brasil. De navio, e não de balão.

Viagem à Calábria
Um reencontro familiar, um ressentimento, um arrependimento e uma viagem de busca às origens rondam os personagens do primeiro romance do gaúcho Sérgio Capparelli. O protagonista viaja à Itália depois da morte do pai. Quer tentar encontrar a família paterna e fazer o que o pai não fez porque não tinha dinheiro para retornar à terra natal pela última vez.

Na Itália, enquanto visita os lugares caros à família, o protagonista também encontra o irmão com o qual cortara relações depois de uma denúncia que complicou a vida do pai. O livro é um romance e a viagem serve como ponto de encontro de questões familiares.

O filósofo peregrino
Radicado no Canadá, o filósofo brasileiro Marcos Bulcão se preparava para realizar uma caminhada de Londres a Atenas quando se deparou com a Via Francígena, uma rota de 2.065km que passa pela Inglaterra, França, Suíça e Itália. Percorrido por peregrinos na Idade Média e pouco conhecido, o caminho fisgou Bulcão, que desistiu do badalado passeio e foi fazer a Via Francígena.

No livro, além de dicas de viagem como mapas, o autor faz reflexões filosóficas sobre a vida e o homem. ;Eu descobri a Via Francígena meio por acaso. Uma rota completamente diferente, cortando quatro países e se estendendo por aproximadamente 2 mil quilômetros... Variedade geográfica, cultural, linguística... Achei perfeito.

E o fato de a Via Francígena ser pouco conhecida dava à ideia um aspecto de descoberta e aventura ainda maiores;, diz Bulcão, que foi o primeiro brasileiro e a 14; pessoa no mundo a realizar o percurso a pé após a redescoberta do caminho, em 1985.

Fã de livros de viagem, o autor foi imaginando O filósofo peregrino ao longo da caminhada. ;Sempre adorei esse tipo de literatura. Para mim, é uma oportunidade única de ver o mundo a partir de outro olhar e, frequentemente, com ;outras pernas;. São livros que nos permitem realizar aventuras que não podemos, seja por falta de oportunidade/condições, seja porque não temos coragem!”, diz.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação