Desenvolvimento sustentável: nova rota para a soja

Desenvolvimento sustentável: nova rota para a soja

ANA CRISTINA BARROS Diretora de Infraestrutura inteligente para América Latina da TNC (The Nature Conservancy)
postado em 10/10/2014 00:00


Os agricultores do Centro-Oeste do país sempre consideraram a região Norte o caminho mais curto para escoar suas safras de soja e milho ; que no ciclo 2013-2014 pode chegar a 73 milhões de toneladas, quase a metade da colheita nacional desses grãos, conforme levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Por longo período, esse trajeto não passou de remota possibilidade para os produtores, em razão da falta de opção logística que permitisse alternativa viável ao percurso de 2,5 mil quilômetros entre a saída do Mato Grosso e os portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR). Essa longa distância encarece o frete em 34%, de acordo com dados do Movimento Pró-Logística de Mato Grosso, e aumenta a necessidade de uma saída hídrica pelo Norte brasileiro.

A solução se encontra no estado do Pará. O agronegócio tem voltado sua atenção à região, por conta do enorme potencial de escoamento fluvial anual de 40 milhões de toneladas de grãos do Centro-Oeste, estimado para os próximos seis anos. A consultoria Macrologística calcula que investimentos da ordem de R$ 6,2 bilhões são realizados pelo setor para as instalações de terminais, comboios de barcaças e empurradores para o transporte pelo Rio Tapajós ; chamado de Mississipi brasileiro, devido ao potencial de navegação e transporte.

A saída para o Norte do país beneficiará especialmente os produtores do norte mato-grossense, cujas colheitas serão transportadas por meio da BR-163 até Miritituba, onde é realizado o transbordo da carga para as barcaças que descerão o Rio Tapajós até os portos de Santarém e Vila do Conde, em Barcarena. De lá, os grãos são transferidos para navios graneleiros, com destino à Europa e à Ásia.

Essa matriz amazônica de transporte significa a criação de um dos mais importantes corredores logísticos intermodais do país, formado pela BR-163 e pela hidrovia Tapajós-Amazonas. Prefeituras locais já se animam com a onda de investimentos na região, pois até o momento a região era apenas explorada em negócios pouco perenes, como o extrativismo do garimpo na década de 1980.

Mas é preciso tomar cuidado para que não haja a degradação desenfreada da floresta e dos rios ; e a solução passa pela colaboração entre organizações ambientais e grandes empresas. Um exemplo já em curso é o projeto da organização ambiental The Nature Conservancy (TNC) na região, em parceria com a Cargill e com a Bunge.

A lista verde da TNC, como é denominado o grupo de 250 agricultores da região de Santarém que buscam trabalhar seus cultivos dentro da legislação ambiental, é uma busca por soluções compartilhadas que reduzam o impacto ambiental e proporcionem boas práticas de negócios. Entre as ferramentas essenciais, está o uso do Cadastro Ambiental Rural (CAR). Esse registro será peça fundamental para o monitoramento de 5,2 milhões de hectares de áreas preservadas por meio de mapas, imagens de satélite e aparelho GPS.

As empresas também já se movimentam com foco na agenda urbana. Uma agenda mínima de investimentos foi acordada com a Prefeitura de Itaituba, como uma licença social para os portos. Alguns dos compromissos definidos são a criação de um plano diretor, um aterro sanitário e de coleta seletiva, além de captação, tratamento e distribuição de água e da instalação de transformadores para as escolas. O Tapajós em si, o rio de águas claras cor de esmeralda, ainda está desamparado frente ao fluxo de navegação aumentado.

As exigências em relação ao monitoramento e às compensações da atividade portuária no Tapajós devem ser rigorosas. A ideia de retirar milhões de caminhões das estradas é, por si só, vantajosa para o meio ambiente. Porém, a restrição do impacto social e ambiental, a partir da sua avaliação por ferramentas inteligentes e do seu correto gerenciamento, é o que pode tornar esses novos empreendimentos o caminho para uma logística sustentável ; e não um exemplo de ruína da gestão ambiental na Amazônia.


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