Um novo imortal

Um novo imortal

Escritor, historiador e diplomata pernambucano, Evaldo Cabral de Mello Neto é eleito para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Considerado o maior conhecedor do período holandês no Brasil, ele ocupa a vaga de João Ubaldo Ribeiro

VANESSA AQUINO
postado em 24/10/2014 00:00
 (foto: Arquivo/DP)
(foto: Arquivo/DP)

A Academia Brasileira de Letras (ABL) elegeu mais um imortal na tarde de ontem. O escritor, historiador e diplomata pernambucano Evaldo Cabral de Mello Neto foi o escolhido para ocupar a cadeira 34, que pertencia a João Ubaldo Ribeiro, falecido em 18 de julho deste ano. O intelectual foi eleito com 36 votos de 37 possíveis.

Ao Correio, o presidente da ABL, Geraldo Holanda, disse que a escolha de Evaldo é prova de reconhecimento e motivo de alegria para a instituição. ;Estou muito contente com a eleição do Evaldo, ele é um grande intelectual e precisava realmente ser incorporado ao nosso grupo. Eu acompanho a carreira dele desde muito tempo. Ele é, sem dúvida alguma, o maior conhecedor do período holandês do Brasil. É motivo de muita alegria para a Academia.;

Evaldo era o único candidato à vaga e é considerado um dos maiores historiadores brasileiros em atividade. Irmão de outro acadêmico ilustre, João Cabral de Melo Neto (1920-1999), ele é especializado na ocupação holandesa em Pernambuco (1630-1654), bem como na região. Não à toa, ele costuma julgar Maurício de Nassau uma das figuras ;mais simpáticas; da história do país.

Entre as principais obras do autor, as que alcançaram mais destaque são A outra Independência ; O federalismo pernambucano de 1817 a 1824 e O negócio do Brasil. Neste, Cabral de Mello prova com documentos que os portugueses precisaram pagar aos holandeses 63 toneladas de ouro para que eles abandonassem Pernambuco. O historiador revê a tese de que união de portugueses, índios e negros culminou com a expulsão dos estrangeiros. O intelectual também é conhecido por criticar o ;Rio-centrismo;, a historiografia feita sob o ponto de vista apenas do Sudeste, ignorando outras regiões brasileiras. Dono de uma prosa elogiada, Cabral de Mello costuma voltar a fontes primárias ; os documentos históricos ; para fundamentar as obras.

A candidatura do imortal viveu um impasse no começo, quando o jornalista Zuenir Ventura também quis se candidatar para a vaga de João Ubaldo Ribeiro. Com a morte de Ariano Suassuna, logo em seguida, porém, os articuladores das duas candidaturas costuraram um acordo em que o jornalista passou a concorrer à vaga do autor pernambucano. Zuenir é o favorito para a eleição que acontece na próxima quinta-feira, dia 30. Será a terceira em menos de um mês. No último dia 9, Ferreira Gullar foi eleito para a vaga de Ivan Junqueira.

Os ocupantes anteriores da cadeira foram: João Manuel Pereira da Silva, fundador ; que escolheu como patrono o sacerdote, poeta e autor de diversas obras líricas de caráter filosófico Sousa Caldas ;, Barão do Rio Branco (José Maria da Silva Paranhos Júnior), Lauro Severiano Müller, Dom Aquino Correia, R. Magalhães Jr. e Carlos Castelo Branco.

O intelectual
Evaldo Cabral de Mello é conhecido pela discrição. Avesso a entrevistas ; que só costuma conceder a amigos e em raras ocasiões ;, o autor sempre se recusou a se tornar uma figura pública muito conhecida. O jeito discreto nunca impediu que a importância fosse confirmada por estudiosos e colegas. A indicação de que ele finalmente havia se interessado pela vaga logo mobilizou os acadêmicos, que fecharam um acordo silencioso para garantir a escolha.

O escritor nasceu no Recife, em 1936, quando seu irmão, o poeta João Cabral de Melo Neto já tinha 16 anos. Seu interesse pela história o fez estudar a filosofia da disciplina, em Madri e em Londres, mas ele terminou também seguindo os passos do irmão na carreira diplomática. Evaldo, no entanto, se considera mais moderado que o irmão, a quem considerava ;muito obsessivo.;

Evaldo começou a dar os principais passos nos estudos históricos em 1975, com o livro Olinda restaurada: guerra e açúcar no Nordeste, 1630-1654, já dentro do período histórico que seria o alvo da maioria das pesquisas: o ciclo do açúcar no Nordeste brasileiro, especialmente no durante a invasão holandesa. Nas décadas seguintes, o autor se debruçaria sobre a relação entre a região e o centro administrativo da Colônia, a Restauração Pernambucana, o comércio internacional do açúcar e teceria, mais recentemente, até dois perfis biográficos: um do administrador Maurício de Nassau e outro do abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco.

Obra
; Olinda restaurada: guerra e açúcar no Nordeste, 1630-1654 (1975)
; Norte agrário e o Império, 1871-1889 (1984)
; Rubro veio: o imaginário da restauração pernambucana (1986)
; Carapuceiro (organizador) (1996)
; Nome e o sangue: uma parábola familiar no Pernambuco colonial (1989)
; A fronda dos mazombos: nobres contra mascates, 1666-1715 (1995)
; Negócio do Brasil: Portugal, os Países Baixos e o Nordeste, 1641-1669 (1998)
; Um imenso Portugal: história e historiografia (2002)
; A outra Independência (2004)
; Nassau (2006)
; Nome e o sangue (2009)
; Essencial Joaquim Nabuco (organizador) (2010)
; Brasil holandês (organizador) (2010)
; Negócio do Brasil (2011)

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