O potencial criativo da capital

O potencial criativo da capital

Levantamento do Sebrae-DF mostra que Brasília aparece na segunda colocação nacional no segmento centrado no talento individual. Em expansão, esse mercado ganhará, a partir do próximo ano, um polo e projetos de capacitação para empresas incubadoras

» ROBERTA PINHEIRO » FLÁVIA MAIA
postado em 24/10/2014 00:00
 (foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)

;O brasileiro não espera uma solução, vai lá e cria;, afirma Georgia Nicolau, diretora de Empreendedorismo, Gestão e Cultura do Ministério da Cultura. Em 2012, o pai do termo economia criativa, John Howkins, em entrevista à Revista do Correio, ressaltou a diversidade cultural como um diferencial brasileiro no desenvolvimento do setor. Mas também lembrou que essa característica precisa ser mais bem explorada. ;O Brasil é conhecido pelo seu estilo, pelas cores, pela paixão, pela emoção, pelas roupas, pela música e pelo futebol. Mas essas qualidades não são traduzidas em personagens, histórias, produtos, serviços, design, carros ou roupas que consumidores de Nova York, Londres ou Xangai querem comprar;, afirmou, na ocasião.

Questionados sobre o potencial brasileiro no segmento criativo, especialistas em empreendedorismo são unânimes em afirmar que o país tem elementos para desenvolvê-lo. ;A economia criativa tem crescido a sua participação, mas ainda há muito espaço. Temos a força empreendedora e uma capacidade muito interessante de nos reiventarmos. Precisamos transformar todas essas influências em produtos e em serviços diferenciados para o mercado;, defende Newton Campos, professor de empreendedorismo da Fundação Getulio Vargas (FGV). ;O Peru se firmou como uma referência de culinária internacional. Aproveitaram o tempero das várias culturas do país e apresentaram um produto que está ganhando o mundo;, conta.

Para Carlos Alberto dos Santos, diretor técnico do Sebrae Nacional, nesse processo de construção da economia criativa brasileira, a boa orientação é fundamental, como mostrou os quatro dias da série ;O valor das ideias;. Por isso, o Sebrae vai investir, no próximo triênio (2015-2018), R$ 70 milhões. Atualmente, o órgão atua em 180 projetos. ;É um segmento com muitas peculiaridades de serviço e de produtos. Existem alguns setores mais simples de empreender porque a sua natureza é mais descomplicada. Mas a economia criativa precisa desse auxílio para crescer no país;, justifica.

Apesar das dificuldades, cidades brasileiras como Brasília despontam em potencial de desenvolvimento criativo. O mercado da capital é o segundo em expansão, de acordo com dados do Sebrae-DF. Perde só para o Rio de Janeiro. Por aqui, o fato de 93,3% do Produto Interno Bruto (PIB) local estar centrado no setor de comércio e de serviços faz com que atitudes empreendedoras tenham mais espaço. Sem um parque industrial significativo, as empresas de pequeno porte ganham importância econômica e se tornam peças-chaves na geração de empregos. Números do Sebrae-DF apontam que 98,6% das empresas brasilienses são de menor porte. Elas empregam 47,4% da mão de obra.

Investimento
Outro triunfo do Distrito Federal é a força do mercado consumidor. ;Com uma renda alta, as pessoas de Brasília conseguem incluir em seus orçamentos produtos diferenciados e com preços mais altos;, acredita Antônio Valdir de Oliveira Filho, superintendente do Sebrae-DF. A formação educacional dos brasilienses, com maior média de anos de estudo, também aparece como diferencial. ;A economia criativa não está necessariamente ligada à escolaridade, mas, quando você tem profissionais mais qualificados e informados, a chance de surgir um produto inovador cresce;, explica.

De olho nesse ambiente favorável, o Sebrae-DF, em parceria com o Ministério da Cultura, vai capacitar, a partir do próximo ano, incubadoras para economia criativa em 12 estados e no DF. Além disso, deve criar no Conic um polo para o segmento. Assim, visa fortalecer iniciativas como a Muviola Produtora de Filmes. A empresa funciona desde 2012. ;A gente não quer fazer filme de São Paulo em Brasília. Procuramos o que é nosso e exploramos o imaginário do brasiliense;, destaca Johil Carvalho, 32, um dos sócios da produtora.

Ele e mais dois amigos, Sérgio Lacerda, 45 anos, e Luis Felipe Matos, 38, contam que, depois de um curso de cinema em 2004, despertaram o olhar para esse universo. Em 2007, perceberam que esse potencial criativo poderia ser transformado em negócio. ;Com recurso próprio, filmamos o curta Olhos nos Olhos e ganhamos a Mostra Brasília. Quando recebemos a premiação, pensei: ;É, levo jeito para isso;;, relembra Johil.

Os sócios da Muviola reconhecem que o mercado de cinema na cidade e no país é complicado, principalmente pela falta de investimento. No entanto, identificaram uma crise de conteúdo que poderia ser usada a favor da produtora. ;Decidimos fazer um material nosso, interessante e com uma temática voltada para Brasília. Às vezes, você vê determinadas construções na cidade e não imagina que foram planejadas e guardam histórias;, comenta Sérgio Lacerda.


Palavra de especialista

A importância da patente

;O elemento central da economia criativa é trazer para o mercado um produto ou um serviço inovador. Por isso, a orientação é de que esses empreendedores registrem patente de suas criações no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi). Não dá mais para ser intuitivo, é preciso proteger o que foi criado. Senão, vai ser copiado rapidamente. Veja os casos como o da Apple e o da Samsung, as duas gigantes travam disputas por patentes há quatro anos. Uma patente em software, por exemplo, protege o inventor por 50 anos. Em outras áreas, de 15 a 20. Para pessoas físicas e pequenas empresas, as taxas do Inpi são mais baixas, exatamente para incentivar o registro.;

Gildásio Pedrosa, especialista em direito empresarial


NA INTERNET

Confira no site um artigo e vídeos com os depoimentos dos personagens da série.




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